quinta-feira, 31 de março de 2011

O Flat e a Street

Vista da Sala


A Sala

Uma casa-de-banho

Entrar no quarto

O quarto e a nossa cama de casal totalmente máscula

O armário e o cavalete

Uma cena

O quarto da Margarita

A cozinha

A rua e um pouco de narcisismo

Apenas a rua

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Entetanto III

No dia seguinte a termos aterrado em terras mágicas de Margarita fomos trocados por Paris, mais precisamente por Olivier. Para nós foram três dias sós, em descanso absoluto, e a contemplar cada pedacinho da casa como nosso pela primeira vez. Finalmente descontraídos em casa, com o nosso espaço assegurado, sem nenhuma necessidade de sair para arejar. Fechados num interlúdio essencial para nos reequilibrarmos e restabelecermos energias. Quando regressou no inicio da semana já tínhamos conquistado o nosso lar. Seguiram-se uns dias de convivência como flatmates numa relação tão fluída que parecia escrita e, a meio da semana, o nosso primeiro jantar a sério. A Margarita convidou a Valentina, uma amiga italiana, ex-aluna, realizadora e artista e cantora e fotógrafa e activista entre outras coisas, simpática e divertida e sagaz e bonita e curiosa e intensa entre mais algumas coisas. Umas garrafas de tinto, palavras soltas, discussões frenéticas, guitarras variáveis, gargalhadas sonoras e uma noite bem passada. Até que chegámos às duas e meia da manhã de olhar perdido e sorriso rasgado e eu a ter que ir entregar flyers para a porta de uma discoteca. A Valentina informou-me que o sítio ficava no caminho de casa dela e que, como estava cansada, viria lado a lado comigo por entre a fria noite que nos esperava lá fora. Já estava meio atrasado, pela primeira vez desde que comecei nestes pequenos trabalhecos, e ela ia-me atrasando mais. Ria-se, parava e mostrava-me pedaços da cidade, e íamos cantando e a disparatar rua fora. Foda-se, sou totalmente explorado, tenho o direito a chegar atrasado filhos da puta, verbalizei eu a certa altura. E assim foi. A falar alto e a cantar se fez o caminho. Chegámos à porta da tal discoteca e faltavam 15 minutos para acabar o meu "turno". Felizmente o crime (em legítima defesa, claro) compensou e o meu "boss" nunca soube, mas também se soubesse não poderia dizer grande coisa. Ela deixou-me, os dois inteiros e cúmplices, num estranho e tremido beijo entre a bochecha e o lábio firmámos o nosso até já, e lá fiquei com os flyers na mão a vê-la fugir no seu caminhar cantante.Vira a esquina e eu viro a cabeça para os bêbados e dondocas que saem do Cabaret Voltaire.
"Hi there, great gigs and partys...Hi there....Hey man, great concert at the bong...Hey there....Hey....Helloo, Wonky at the bongo club...What? I think it's some kind of Funk or something...Hey there...Hi....Hell....o"




domingo, 13 de fevereiro de 2011

Tempo para ver

Wiggum's - Jazz aos Domingos



Forest Cafe - Swing Ninjas



Forest Cafe - Swing Ninjas a subir o ritmo



Forest Cafe - Swing Ninjas conquistam



O túnel


(até haver tempo para escrever)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ide aspas, ide!

Only Dog walker's can enter this garden.



Bem-vindo a Edimburgo, Arnaldo Ícaro.



5ª tentativa



Sideways and forward.



Do nada.



Um poiso.



Um obelisco num poiso



Rui, o profissional.



Praça Universitária.




O latte matinal à porta do antigo flat.



Trilhos Universitários



Meadows Park



O castelo de Edimburgo.



Perdido a um canto.



Ketchup e Mayonese ao lado da morte.



A espera.



Someone



'Sure you can!'



National Museum of Scotland



Outro poiso.



Two lads writing on the wall



Forest Cafe. Poetry Night.



Forest Cafe



Forest Cafe



Forest Cafe. Swing Ninjas.



Forest Cafe. Swing Ninjas a espalhar energia.



3.30 da manhã. Depois de bêbados a rebolar em flyers, o caminho solitário até casa.

 
       

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Rosto de Edimburgo

A chegada ao nosso primeiro poiso - a sala/cama

William with Wireless connection problems

Rodrigo, Elena, and William (again with connection problems)

A única noite alcoolizada até agora. Rodrigo e os seus amigos espanhóis.

La resistance. 4 pessoas a dormir numa sala imunda.

O colchão de casal que partilhei com o Rui durante um mês.
Noite sim, noite não, dormi agarrado à "pila" (bolsa de ar marada)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um mês IV

Levantei-me na manhã seguinte e enquanto o Rui distribuía flyers pela cidade eu começava a desbravar todos os sites de flat sharing, inscrevia-me em tudo e mais alguma coisa e no meio da busca cuspi umas quantas linhas que serviram de template de apresentação da dupla:

Hello
I have recently arrived in Edinburgh with a friend of mine and we are looking for a room to stay until the end of April. We are two straight males ( só para anular qualquer dúvida..) but big friends so we don't mind to share a double bedroom in case you don't have two singles. Our major priority is to save money so comfort is not the first thing on our mind. My name is André and I have worked as a creative copywriter for a big advertising agency in Portugal for the last three years. I am a nice guy who likes to write, talk and travel. My friend's name is Rui and he has a management degree. He plays the guitar and does yoga. He's a great guy and also a pretty nice friend to have around. We are friends almost since we were born and both travelers. We started an around-the-world trip now. We intend to stay 3/4 months here in Edinburgh and then go to another country.
Hope to hear from you soon. We are ready to move right away if you would take us. We are very tidy and responsible.

Escolhi a via da honestidade, como sempre faço desde há uns anos para cá. Caguei para discursos formatados, para formalismos e merdas do género. Eu sou eu, impulsivo e acriançado, e confio que o que sou me leva naturalmente ao que quero.
Um dia depois, depois de dezenas de mails, recebo umas quantas respostas. Uma delas de uma mulher que pedia 400 pounds por mês num flat junto ao centro. Tínhamos hipóteses mais baratas mas estavam marcadas para os dias seguintes e não sabíamos se aceitariam duas pessoas na mesma cama de casal. Ela falava que podíamos ir lá ver o flat nessa mesma noite porque dois dias depois ia para Paris. Fomos. Liguei a meio do caminho para confirmar direcções e pelo telefone recebi uma voz delicada que me acalmou o andar. Entrámos no prédio, subimos dois vãos de escada e deparámo-nos com uma pequena Mulher de 50 anos, elegante e sorridente, olhos azuis profundos e uma expressão de carinho independente. Tínhamos uma verdadeira mulher à nossa frente. Feita de delicadeza e sensualidade, sem se insinuar, apenas sendo mulher sem vergonha de o ser, em todo o seu esplendor. Convidou-nos a entrar com o ar mais descontraído do mundo e as poucas defesas que transportava esfumaram-se para nunca mais as ver. Entrei e flutuei ao primeiro passo. Toda a casa respirava vida, viagens e criatividade. Não havia arrumação nem confusão, havia sentido. Já transbordava amor mesmo antes de conseguir falar. Mostrou-nos a cozinha, ampla e calorosa; a sala cheia de livros antigos a um canto e com uma vista aberta sobre a cidade; e o nosso quarto onde uma cama de casal gigante se encostava à parede numa área maior do que a sala onde dormíramos, com um tecto altíssimo e um cavalete encostado ao armário. Enquanto eu me deslumbrava ela, Margarita de seu nome, ia-nos contando que a casa tinha mais de duzentos anos. Dizia-nos com naturalidade mas com um olhar vivo que estava tudo um bocado desarrumado e perguntava se gostávamos do quarto. Eu arranjo um colchão no Ikea para não terem que ficar os dois na mesma, ouvia eu desta pequena madame. Depois de rondarmos a casa com um sorriso incrédulo estampado na cara sentámo-nos os três na sala e começámos a conversa. Chamava-se então Margarita, metade irlandesa metade ucraniana, Art Psychotherapist, Senior Lecturer e Programme Leader na Universidade de Edimburgo. Viajante por natureza, confessava que costuma passar pouco tempo por cá. Já viveu na America Latina, foi casada com um Colombiano, passou uns tempos no Chile, em Paris, em África e sei lá mais onde. Espero que não se importem que venham cá dormir umas visitas de vez em quando, nessas noites fico-me pelo sofá porque sou pequenina, dizia divertida. Deixou de exercer psicoterapia individual, porque lhe retira a liberdade de ir por aí quando lhe apetece, e agora prefere focar-se em grupos de trabalho por sentir que em conjunto se vai mais longe, mais fundo. Falámos de nós e a conversa foi parar à música. Declarou que adorava tal fadista portuguesa, levantou-se, ligou o iPod a umas colunas rústicas e quando dou por mim estou num sítio desconhecido a milhares de quilómetros do meu país a ouvir uma malha de guitarra portuguesa seguida de uma poderosa voz de jasmim. Depois de encaixarmos tudo isto, e depois de nos dizer que cobraria apenas 360 por mês a dividir por dois mais as contas pelos três, desabafámos que apesar de tudo o mais importante para nós tinha de ser o preço, e havia sítios mais baratos. Confessou que não partilhava a sua casa com qualquer pessoa, que seguindo a sua intuição nos tinha escolhido a nós e que sentia que tinha acertado. Então esqueçam as contas, fica só 180 pounds a cada um, improvisava ela com uma leveza desarmante. O Rui assustava-se com tamanha fabulosidade, eu explodia de alegria. A vida ouviu-nos pensava eu. Ouviu mesmo. Que merda é esta? Isto é lindo, tudo é lindo, o mundo e o universo e a Terra e a Via Láctea e a lua também. Caralho paaa, é isto! Isto é que é o tamanho do mundo foda-se. Eu já dizia que sim com a cabeça, o Rui queria mas continha-se. Ela via tudo sem sequer repararmos. Transparentes, confessámos que muito provavelmente seria um Sim da nossa parte, um Sim do tamanho de tudo o que existe, mas que iríamos na mesma esperar pelo dia seguinte para comunicar a nossa decisão final para termos tempo de discutir a sós. Ela sorria e perguntou se queríamos café. Fomos para a cozinha e ficámos 2 horas a falar os três sobre viagens, psicoterapia, Jung e Freud, sobre um ensino mais humano e tal e tal e tal e outros assuntos tão viciantes como estes. Despedimo-nos com um até já e quando chegámos a casa os nossos flatmates fizeram-nos uma simples pergunta: Que cara é essa? No dia seguinte deixámos-lhes um envelope com 100 pounds, agradecemos a ajuda num abraço ao Rodrigo, ligámos à Margarita e perguntámos se nos podíamos mudar ao final da tarde.
E é assim que chegamos ao presente. Passaram-se três noites e aqui estou eu nesta cozinha fabulosa. São seis da manhã, cheguei há duas horas e meia do trabalho, o Rui dorme há 5, a Margarita está por Paris com o Olivier, o seu “kind of boyfriend” francês, e eu solto tudo com os Mogwai atrás de mim. Estou em casa. E no entanto, durante este mês, nunca me senti tanto em viagem como agora.  o fabulosidade, eu voava.essava zia-nos com uma leveza desarmante. O Rui assustava-se com tamanha fabulosidade, eu voava.essava

Um mês III

A uma dada altura da nossa estadia clandestina começamos a notar algum desconforto no Sérgio e no Damian. O Rodrigo e o William tinham o seu quarto imaculado e estavam em paz com a nossa presença. Já o Sérgio, depois de assimilar que não ia viver connosco, tinha decidido alugar a sala onde nós dormíamos, ou seja, enquanto nós não abandonássemos aquela alcatifa tenebrosa ele não tinha outra hipótese que não fosse a de arroxar no chão do quarto do Damian que depois de uma semana e tal, não achava muita piada à situação. Decidimos procurar novamente uma casa os três, tinha mesmo de ser. Para juntar à confusão tinha chegado mais uma pessoa à casa: A Elena, uma okupa espanhola de 30 e tal anos amiga de uma amiga do Rodrigo. Mais uma a dormir naquela alcatifa demoníaca. Recomeçámos a procura e vimos uma casinha perfeita. Dois quartos e uma sala com um jardim interno mágico, 200 pounds a cada um, numa zona pintada pela natureza. Era perfeito. Quase demasiado. O Miguel e o Rui foram ver, os senhorios gostaram deles, e decidimos mudar para lá o mais rápido possível. Uns dias depois fomos ter novamente com os donos do flat, agora eu e o Miguel, e revelámos que seríamos três a viver lá. Escândalo. Não podia ser, diziam eles. Só podem viver duas pessoas no flat e se as autoridades descobrem que estão três cai uma multa de 5000pounds. Fiz o meu teatro e disse que tinha muita pena mas que me arranjava noutro sítio. Claro que continuava a pensar ficar lá na mesma, nem sequer imaginei outra hipótese. Quem é que iria descobrir? E se descobrissem como iriam provar que eu lá estava a viver e não era apenas um amigo a dormir no sofá depois de uma noitada? Isto era o meu discurso interior. O Miguel tinha outro, naturalmente. Era o drama, absolutamente trágico, “eles” podiam aparecer às cinco da manhã e colocar-nos a todos em tribunal e não sei quê. Depois de tentar racionalizar e de obter sempre o mesmo discurso negativo e conspirativo, decidi deixar a ideia a pairar. Ele triturava-se em preocupações e eu esperava por decisões. Não podia ser eu sozinho a decidir, ele é que ia ter o nome no contrato pois era o único que iria permanecer mais de 6 meses. O Rui estava alinhado comigo e, tal como eu, deixou-o pensar.
No dia seguinte, em conversa aberta, coisa rara durante essas três semanas, apercebemo-nos que este possível Não podia ser uma oportunidade. Será que queríamos mesmo viver com o Miguel? Não iríamos ficar presos a ele e ele a nós? Nós queremos liberdade absoluta, poder sair do país quando bem nos apetecer, enquanto que ele vai cá ficar no mínimo até Setembro e precisa acima de tudo de estabilidade e segurança. Para além disto, havia ainda o efeito que este trio tinha em nós. Toda aquela depressão e negatividade constante acabava por se transmitir, pesava-me a mim e mais ainda ao Rui, ocupava tanto espaço que não sobrava nenhum para nós, e nós não viemos por aí para nos anular-mos. Conversámos sobre a hipótese de irmos os dois, de alugarmos apenas um doubleroom numa casa partilhada onde pagaríamos menos e estaríamos mais soltos. Só de falar nisto já respirávamos de alívio e sonhávamos com o momento, uma corrente de energia louca explodia nos nossos corpos só de imaginar a possibilidade. Este Não é a vida a dizer-nos alguma coisa, desabafava o Rui. Há que confiar na vida, respondia eu. Depois de muitas voltas regressávamos então ao mesmo: estávamos bem os dois sozinhos. Foi aí que vimos que, depois de três semanas a dormir ombro com ombro no mesmo colchão insuflável manhoso, depois de 3 semanas no mesmo sítio, só agora estávamos realmente juntos. Todo aquele pessoal, todo o peso do Miguel e toda a missão de procurar trabalho e resolver questões burocráticas tinha-nos afastado completamente. Não havia espaço para estarmos. Fechámos então a questão: se esta casa não desse seguiríamos os dois para outra, livres. No dia seguinte falámos com o Miguel, que tinha colocado o outro flat de parte e já pressentia a nossa inclinação nas suas teorias da conspiração, desta vez com fundamento. Compreendeu a cena, achou até que seria melhor para ele e recomeçámos a procura, desta vez separados em dois. As camadas em excesso iam caindo e a nossa leveza ia aumentando. Ao longo deste filme os nossos dois flatmates descontentes iam contando os dias que nós iríamos demorar a sair da casa, não porque não gostassem da nossa companhia mas porque gostavam bastante mais de ter o seu espaço íntimo. Compreensível, mas desagradável. Durante todo este processo, que agora descrevo com demasiada minúcia, até que andava tranquilo. Tinha vindo preparado para um começo de guerreiro e todo o amor que trouxe comigo dava-me auto estima de sobra para passar ao lado de todo o stress alheio. Acabava por seguir o meu caminho sozinho mas sentia-me bem com isso. Contudo agora já não me sentia invencível, tinha passado para o outro lado. Temos que sair Rui, não podemos perder mais tempo. É já caralho, esta merda já me está a atrofiar. O Rui agora trocava de lugar comigo nesta atabalhoada dança e dizia-me que não havia razões para ficar nervoso. Vamos lá procurar o nosso lugar.

Um mês II

Saímos fortalecidos. Contra as agoirentas previsões de Janeiro, um de nós conseguiu arranjar trabalho em menos de uma semana. Era uma questão de tempo até o outro seguir o mesmo trilho.  Passaram-se dias, uma semana e mais uns dias e nada. Fui até a uma entrevista para cleaner a meia hora de distância de autocarro, mas nada feito. Até que recebo finalmente uma resposta a um mail que me deixou confiante. O trabalho também era com flyers mas só para umas festas pontuais para uns Dj's conhecidos aqui da zona. Fui então à minha segunda entrevista e correu bem. Na mesma noite recebo uma mensagem de um deles a dizer que talvez precisasse de mim nessa noite. I'm in moooohooofuckas!!! Não chegaram a chamar-me nessa noite embora me tenham dado a entender que seria o flyer man escolhido. A meio da semana seguinte recebo o mail do meu primeiro trabalho escocês. Quinta-feira à porta da discoteca tal, sexta à porta daquele bar, sábado à entrada de tal concerto e domingo à saída da outra discoteca. 10 pounds à hora. Fabuloso. Teria que lá estar a entregar flyers durante uma hora. Vejo o horário: 2.15 às 3.15 da manhã. Cum caralhote. Nós andávamo-nos todos a deitar à meia noite, vencidos pela procura diária de work, e eu agora ia sair de casa sóbrio às duas da manhã, com o apartamento inteiro a dormir há mais de duas horas, para entregar flyers a bifes que caiam de bêbados discoteca fora antes de rastejarem para casa. Adorei. Era mesmo esta merda que eu queria, algo fora, violento e desafiante. Tinha pena de serem tão poucas horas, mas juntando a isto o tempo de ir buscar os flyers e o caminho de ida e volta, ainda dava um bom dinheiro. Pelas minhas contas fiz 80 pounds nessas 4 noites. É um começo, pensei. Com o meu mp3 no bolso, sempre com música fabulosamente aleatória a servir-me de banda sonora, lá fiz  o trabalho sujo dessas quatro madrugadas. Eu no meu ritmo, eles noutro. O que mais me impressionou foi a decadência que vi. Estes gajos estão noutro nível. Um nível bem baixinho. Seja qual for a idade, o sexo ou a profissão, estes escoceses matam-se com álcool. Não são bebedeiras gigantes como as nossas, são suicídios não consumados. Enquanto que nós numa noite mais agressiva podemos cambalear (só falo por mim claro..), eles chocam contra paredes e caiem para a frente, para os lados e para trás, não se aguentam em pé. Parecem zombies, olhos vazios e lábio descaído, completamente acabados como seres humanos, dezenas a esfarraparem-se pelo asfalto. Mulheres de 55, putos de 18, homens de 40 ou pessoal da minha idade, vi de tudo. O que me vale é que tenho sempre a minha musiquinha a dar alguma harmonia a esta dança deprimente. Confesso que a melhor parte do trabalho, para além do dinheiro, é o momento anterior à saída, duas horas sozinho em casa com tudo a dormir e eu a escrever, e o caminho de ida e volta, quando me deixo levar pelos acordes e batidas das minhas bandas mais marcadas enquanto canto e vagueio pela ruelas secundarias da cidade.

Um mês I


Dentro de poucos dias faz um mês desde o dia em que aterrámos em terras de William Wallace. Sempre com a liberdade em mente começámos a sangrenta batalha para arranjar trabalho, a batalha pela nossa independência. Sabíamos que seria a parte mais dura da viagem mas estávamos preparados, foram 3 anos e meio de espera, estávamos fortíssimos. Antes da partida havia algumas possibilidades para este começo, já pensadas como certezas, mas penso que nenhuma se cumpriu. Nos últimos dias em Portugal estudámos através de vários telefonemas com o Miguel a hipótese de vivermos os dois com ele e mais um amigo, o Sérgio, um músico português que por cá vive há mais de três anos e que também prometia ajudar neste início escocês. Seria mais fácil para nós e a verdade é que no avião ainda não sabíamos se já haveria uma casa pronta para nos receber ou se iríamos ficar uns dias em casa de uns amigos deles até nos mudarmos os quatro. A primeira opção fazia-nos sonhar com uma aterragem segura. Sonho não cumprido. Fomos para casa de desconhecidos, onde os nossos companheiros tugas também dormiam por favor. Resumindo, entrávamos numa casa com três quartos ocupados onde dormiriam agora mais quatro tugas em modo tetris no chão de uma sala poeirenta com quilos de cotão e pêlos púbicos agarrados à alcatifa. Nada que nos atemorizasse, mas a batalha mal tinha começado. Passados apenas dois dias concluímos que o Sérgio até era um gajo porreiro mas nunca seria alguém com quem partilhássemos uma casa. Fala-barato, surdo, pintarolas e superficial não eram adjectivos com que quiséssemos conviver durante mais do que uma hora por semana. Ajudou-nos muito, e continua a ajudar, mas nada tem a ver connosco. Para além das primeiras missões de arranjar número de segurança social e abrir uma conta no banco, juntava-se agora a de fazer perceber ao nosso anfitrião que preferíamos viver só os três, um grupo mais fechado e mais confortável. Foi ele que nos arranjou este poiso temporário, foi ele que nos iniciou na batalha burocrática e laboral, contudo, por mais desagradável que fosse, não seria por isso que iríamos abdicar da nossa maior preciosidade, o grande motor da nossa viagem - a nossa liberdade. Se nem em Portugal o deixaríamos, quanto mais aqui. Iríamos então viver os três. O Rui, um yoggie dedicado. O Miguel, um pessimista federado. E eu.
Enquanto cumpríamos estas missões, e depois de andarmos à procura de uns quantos flats com dois quartos e uma sala, fomo-nos apercebendo que seria um completo suicídio investir numa casa sem trabalho assegurado, seria meter a corda ao pescoço. Desde a chegada que só gastávamos o mínimo para sobreviver, dois pounds no máximo e só para alimentação a comer uns ovinhos de manhã e a dividir uma refeição de 1 por 2 ao jantar de final de tarde, e mesmo com estes gastos ridículos sentíamos uma pequena tensão ao ver o dinheiro em contagem decrescente sem entrar nenhum. Em cima disto ainda havia outra coisa com que não contávamos quando partimos. Tinham-nos dito que arranjar trabalho em Edimburgo era básico e que havia mesmo uns part-times a distribuir jornais que era só ir lá e começar a trabalhar. Quando chegámos disseram-nos que Janeiro era o pior mês para arranjar trabalho, Fevereiro era pouco melhor, e jornais só mesmo nos quiosques e custavam mais do que o nosso almoço. É a batalha inicial dizia eu. É normal, ninguém disse que seria fácil. Ou será que disseram? Hum...não interessa. Por mais desconfortáveis e invasores que nos sentíssemos teríamos que nos aguentar naquele flat e poupar na estadia até atingirmos uma posição tranquila. Não digo que não sentia um medo anão mas havia tanto amor em mim, a energia que me trouxe era tão gigante que até tive pena do coitado do anão, levou tanto espancamento. O Rui é que se ressentia um pouco com isto tudo, principalmente porque viveu os últimos meses no conforto do seu espaço sem ter ninguém a quem dar satisfações e agora estava dependente, à procura de trabalho para sobreviver e preso a um apartamento impessoal com sete gajos. Eu, o Miguel, o Sérgio e os donos da casa que nenhum de nós conhecia de lado nenhum: O Rodrigo, um músico espanhol tranquilíssimo; o William, um curioso escocês de Glasgow que parece tirado de um filme indie americano sobre nerds hipsters; e o Damian, um pequeno polaco brutamontes, speedado, peixeiro e narcisista. 
Focámos então a nossa atenção em arranjar trabalho o mais rápido possível para podermos sair desta frágil situação. Sentíamos que isto não poderia durar muito portanto atacámos com tudo. Todos os dias a enviar mails e a procurar os tais papelinhos A4 nas portas de pubs e cafés. Candidatei-me a trabalhos de bar, catering, cafés, museus, homem das limpezas, assistente social, e até de porteiro. Entretanto saía daquele apartamento badalhoco sempre que podia para dar um passeio pela cidade. Vi o Museum of Scotland e as National Galleries, candidatei-me aos dois à saída, e deixei-me andar por entre as épicas construções em pedra desta histórica cidade escocesa. Era aí que levitava. Sem ninguém a quem me adaptar, sem ter que ver ou ouvir quem quer que fosse, seguia fluidamente os meus sentidos desbravando perdido pelas ruas do desconhecido. O tempo para estas escapadelas não abundava mas tinha que fugir ao peso daquela casa de quando em quando. O Rui ainda dava o seu passeio ocasional. Já o Miguel, um negativista autodestrutivo, ficava fechado em casa de pijama o dia inteiro a tentar finalizar o currículo e a sua application para a Universidade de Edimburgo, enquanto se martirizava por não conseguir fazer nada. Passámos um bom tempo, principalmente eu que não tinha um passado em comum, a servir de treinadores motivacionais do Miguel.
No final da primeira semana, a primeira grande notícia. O Sérgio tinha falado com uns amigos e conseguido arranjar-nos um part-time a entregar flyers para um restaurante. Eu e o Rui já saltávamos que nem guerreiros, 2 ou 3 segundos em festejos, até que o Sérgio conclui a notícia: só havia uma vaga. Parámos, olhámos um para o outro sem saber o que dizer e eu pensava como é que nunca me passou pela cabeça que esta situação estava condenada a acontecer mais cedo ou mais tarde. Rimo-nos entre dentes e pouco depois a alegria de um de nós já se ter safado veio ao de cima. O Miguel estava fora da corrida, só se interessava por trabalhos de escritório, portanto a vaga teria que cair para um dos dois. Decidimos atirar moeda ao ar. Se havia alguma decisão a tomar que fosse a vida a tomar por nós. Apesar das insistências boçais para o fazermos ali acabámos por adiar o momento para quando nos apetecesse, não queríamos espectadores. Mais tarde, ao voltarmos sozinhos das compras, no meio de uma das ruas principais da cidade, o Rui sugere acabarmos com o assunto. Eu fico com cara, ele coroa. Não há cá melhor de três que isso é uma estupidez competitiva. Senti que ia perder mas estava tranquilo. Atirámos a moeda ao ar pelo nosso primeiro trabalho da viagem, deixámo-la tilintar e dançar à vontade pela calçada, e vimos o resultado. Coroa. O pressentimento estava certo e ambos sentimos que a vida também estava: de nós os dois, o Rui era o que tinha menos dinheiro. Fazia sentido. Abraçámo-nos sem merdas mas com força e seguimos leves até casa.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Palavra de Edimburgo






 
(Quando ia tirar a foto eles aparecem sem sequer repararem em mim. Timing Perfeito.)




National Museum of Scotland. Freedooooooooooom!




National Museum of Scotland. Always Freedooooooooooooooooom!




Society and Culture




Scottish humour




Alfarrabista. Carregar na imagem para ler melhor. Vale a pena.




Todos os bancos de jardim espalhados por Edimburgo são oferecidos por alguém em memória de outrem. Este não. Acho eu.




National Museum of Scotland. Alexander Pope.




National Museum of Scotland. Dedicatória do Ewan Mc Gregor. Choose Life!




The Forest Café.




The Forest Café




Whoring Banksy. Cópias em massa.