domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um mês IV

Levantei-me na manhã seguinte e enquanto o Rui distribuía flyers pela cidade eu começava a desbravar todos os sites de flat sharing, inscrevia-me em tudo e mais alguma coisa e no meio da busca cuspi umas quantas linhas que serviram de template de apresentação da dupla:

Hello
I have recently arrived in Edinburgh with a friend of mine and we are looking for a room to stay until the end of April. We are two straight males ( só para anular qualquer dúvida..) but big friends so we don't mind to share a double bedroom in case you don't have two singles. Our major priority is to save money so comfort is not the first thing on our mind. My name is André and I have worked as a creative copywriter for a big advertising agency in Portugal for the last three years. I am a nice guy who likes to write, talk and travel. My friend's name is Rui and he has a management degree. He plays the guitar and does yoga. He's a great guy and also a pretty nice friend to have around. We are friends almost since we were born and both travelers. We started an around-the-world trip now. We intend to stay 3/4 months here in Edinburgh and then go to another country.
Hope to hear from you soon. We are ready to move right away if you would take us. We are very tidy and responsible.

Escolhi a via da honestidade, como sempre faço desde há uns anos para cá. Caguei para discursos formatados, para formalismos e merdas do género. Eu sou eu, impulsivo e acriançado, e confio que o que sou me leva naturalmente ao que quero.
Um dia depois, depois de dezenas de mails, recebo umas quantas respostas. Uma delas de uma mulher que pedia 400 pounds por mês num flat junto ao centro. Tínhamos hipóteses mais baratas mas estavam marcadas para os dias seguintes e não sabíamos se aceitariam duas pessoas na mesma cama de casal. Ela falava que podíamos ir lá ver o flat nessa mesma noite porque dois dias depois ia para Paris. Fomos. Liguei a meio do caminho para confirmar direcções e pelo telefone recebi uma voz delicada que me acalmou o andar. Entrámos no prédio, subimos dois vãos de escada e deparámo-nos com uma pequena Mulher de 50 anos, elegante e sorridente, olhos azuis profundos e uma expressão de carinho independente. Tínhamos uma verdadeira mulher à nossa frente. Feita de delicadeza e sensualidade, sem se insinuar, apenas sendo mulher sem vergonha de o ser, em todo o seu esplendor. Convidou-nos a entrar com o ar mais descontraído do mundo e as poucas defesas que transportava esfumaram-se para nunca mais as ver. Entrei e flutuei ao primeiro passo. Toda a casa respirava vida, viagens e criatividade. Não havia arrumação nem confusão, havia sentido. Já transbordava amor mesmo antes de conseguir falar. Mostrou-nos a cozinha, ampla e calorosa; a sala cheia de livros antigos a um canto e com uma vista aberta sobre a cidade; e o nosso quarto onde uma cama de casal gigante se encostava à parede numa área maior do que a sala onde dormíramos, com um tecto altíssimo e um cavalete encostado ao armário. Enquanto eu me deslumbrava ela, Margarita de seu nome, ia-nos contando que a casa tinha mais de duzentos anos. Dizia-nos com naturalidade mas com um olhar vivo que estava tudo um bocado desarrumado e perguntava se gostávamos do quarto. Eu arranjo um colchão no Ikea para não terem que ficar os dois na mesma, ouvia eu desta pequena madame. Depois de rondarmos a casa com um sorriso incrédulo estampado na cara sentámo-nos os três na sala e começámos a conversa. Chamava-se então Margarita, metade irlandesa metade ucraniana, Art Psychotherapist, Senior Lecturer e Programme Leader na Universidade de Edimburgo. Viajante por natureza, confessava que costuma passar pouco tempo por cá. Já viveu na America Latina, foi casada com um Colombiano, passou uns tempos no Chile, em Paris, em África e sei lá mais onde. Espero que não se importem que venham cá dormir umas visitas de vez em quando, nessas noites fico-me pelo sofá porque sou pequenina, dizia divertida. Deixou de exercer psicoterapia individual, porque lhe retira a liberdade de ir por aí quando lhe apetece, e agora prefere focar-se em grupos de trabalho por sentir que em conjunto se vai mais longe, mais fundo. Falámos de nós e a conversa foi parar à música. Declarou que adorava tal fadista portuguesa, levantou-se, ligou o iPod a umas colunas rústicas e quando dou por mim estou num sítio desconhecido a milhares de quilómetros do meu país a ouvir uma malha de guitarra portuguesa seguida de uma poderosa voz de jasmim. Depois de encaixarmos tudo isto, e depois de nos dizer que cobraria apenas 360 por mês a dividir por dois mais as contas pelos três, desabafámos que apesar de tudo o mais importante para nós tinha de ser o preço, e havia sítios mais baratos. Confessou que não partilhava a sua casa com qualquer pessoa, que seguindo a sua intuição nos tinha escolhido a nós e que sentia que tinha acertado. Então esqueçam as contas, fica só 180 pounds a cada um, improvisava ela com uma leveza desarmante. O Rui assustava-se com tamanha fabulosidade, eu explodia de alegria. A vida ouviu-nos pensava eu. Ouviu mesmo. Que merda é esta? Isto é lindo, tudo é lindo, o mundo e o universo e a Terra e a Via Láctea e a lua também. Caralho paaa, é isto! Isto é que é o tamanho do mundo foda-se. Eu já dizia que sim com a cabeça, o Rui queria mas continha-se. Ela via tudo sem sequer repararmos. Transparentes, confessámos que muito provavelmente seria um Sim da nossa parte, um Sim do tamanho de tudo o que existe, mas que iríamos na mesma esperar pelo dia seguinte para comunicar a nossa decisão final para termos tempo de discutir a sós. Ela sorria e perguntou se queríamos café. Fomos para a cozinha e ficámos 2 horas a falar os três sobre viagens, psicoterapia, Jung e Freud, sobre um ensino mais humano e tal e tal e tal e outros assuntos tão viciantes como estes. Despedimo-nos com um até já e quando chegámos a casa os nossos flatmates fizeram-nos uma simples pergunta: Que cara é essa? No dia seguinte deixámos-lhes um envelope com 100 pounds, agradecemos a ajuda num abraço ao Rodrigo, ligámos à Margarita e perguntámos se nos podíamos mudar ao final da tarde.
E é assim que chegamos ao presente. Passaram-se três noites e aqui estou eu nesta cozinha fabulosa. São seis da manhã, cheguei há duas horas e meia do trabalho, o Rui dorme há 5, a Margarita está por Paris com o Olivier, o seu “kind of boyfriend” francês, e eu solto tudo com os Mogwai atrás de mim. Estou em casa. E no entanto, durante este mês, nunca me senti tanto em viagem como agora.  o fabulosidade, eu voava.essava zia-nos com uma leveza desarmante. O Rui assustava-se com tamanha fabulosidade, eu voava.essava

8 comentários:

  1. Porra, foi fabuloso ler-te!
    Se te interessa acho que estás a escrever muito bem, mesmo. Que estás a escrever com o teu traço, o teu ritmo e, que os textos, mais do que propriamente inspirados, estão vivos! Tu, o Águas, estás vivo!
    E tanta história, já, em tão pouco tempo... Cum caralho!!!
    Ah, e não posso deixar de te dizer isto também: estás um shotôr, mas um shotôr de alto nível!
    Um grande abraço de um seu fiel leitor para vós
    que sois quem sois, carago! ;)

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  2. Se puderes tira uma foto à mulher da vossa nova casa. Fiquei curioso!

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  3. Tanta história Garcia, nem imaginas. Houve muita coisa que ficou por escrever deste primeiro mês claro, não me saiu para aí. Mas uma fabulosa foi a entrevista que fui ha uns 4 dias atrás. Candidatei-me a Care Worker com velhotes. Escrevi um texto de intenções completamente meu e, apesar de na application dizerem que era preciso carro para este trabalho, consegui uma entrevista. Fui lá e foi um orgulho a forma como me dei ao momento. Estava lá eu, sem medo de ser e sem merdas. Eu e a senhora que contrata o pessoal numa salinha pequena comigo a falar e a gesticular como se tivesse a falar contigo. A entrevista, diria antes conversa, durou uma hora e meia. Já viste esta merda? Deu até para ela falar da sua própria vida e desabafar umas quantas merdas pessoais. Foi fabuloso! Tou com fé que me telefonem brevemente. Vamos lá ver, bem que precisava de mais um ganha pão e fazer companhia a velhotes e ajudá-los nas suas tarefas domésticas seria perfeito. Já imaginaste? Receberes 7 pounds e tal por hora para estar a falar com velhotes scottish e a sentires-te útil para alguém, fdx espero conseguir.

    Sim, tenho que tirar uma foto à Margarita. Ias ficar super Garcia se a conhecesses. A sério, não imaginas o poder que esta mulher de metro e meio tem. Uma liberdade, uma auto-estima e um à vontade inacreditáveis.Sente-se mesmo bem por ser mulher e não tem medo de o mostrar. É uma benção.

    Curto mt dos teus comentários Pedrito. Sabe-me bem lê-los e faz-me bem recebê-los. Fdx, agora dava-te um abracito Pedritas! :)

    Vós que sois quem sois, sois sem dúvida el Grande Garcia!

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  4. Uhuhuhh!!! Isso era lindo! André Águas a tratar de velhotes. Terias jeito.
    Gostavas muito daquela tua avó...
    Todos eles são avôs, afinal de contas, portanto acho mesmo que te darias bem.
    E cada velho é uma instituição!
    Cada caso é um caso, mas da experiência que eu tenho adorei trabalhar em situações de contacto interpessoal e de assistência social. Há um feed-back do caraças. Porque vendo bem, ao contrário da maioria dos trabalhos, aí, não lhe estas a prestar ou a vender um serviço de que estas não precisem mas algo de que de facto elas precisam e que consideram necessário e bem-vindo. Portanto só por isso toda a troca e toda a relação que se cria neste tipo de trabalhos é diferente, faz sentido e é enriquecedora. É outro esquema mesmo.
    Isto tudo, se se partir do princípio que a pessoa tem tacto. Mas isso tu tens(ponto).

    O el Grande Garcia não se sente lá muito grande neste momento. Os ventos não andam lá muito favoráveis. Coisa que eu não posso controlar. Mas as sementes foram bem escolhidas, o cultivo bem feito portanto é esperar e estar atento ;)

    Um grande abraço caro André Lév Fiódor William Waters London Bukowski Spencer de Kerouac!
    Ou por alguns amigos mais chegados e, sempre por iniciativa do próprio, tratado simplesmente por Águas! ;)

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  5. hehe bom final de comentário (por acaso tive a tarde a ler bukowski. andei a vaguear pelas centenas de livros que ela tem cá em casa e roubei-lhe um Bukowski por umas horas. Ah, e o apelo da floresta já acabei há mais de uma semana. Fabuloso livro!)

    Felizmente essa minha avó de que falas continua vivinha da silva, é a única dos meus avós que ainda continua a passear por cá. É a maior.

    Em relação e El Grande Pedrito Garcia tens de me enviar um mail quando te apetecer a falar sobre as lutas garcianas.

    Até já!

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  6. Bonixo, tenho adorado ler sobre as tuas histórias, ainda por cima com esta tua dedicação a todo o pequeno pormenor!Adoro! Além disso, é refrescante acabar os teus textos emocionada, mas com um sorriso, em vez de lavada em lágrimas feita isbrinni..:p

    beijnhos, love you dédi

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  7. Carry on the good work!
    Durante uns tempos não vou comprar livros nem ver a novela das 8. Vou continuar a seguir entusiasmado esta narrativa da vida real.
    O suspense é enorme. Será que o nosso herói mesmo sem carro vai encontrar trabalho Driving Miss Daisy? E os amigos abandonados, resistirão ao desconsolo? E resistirá o Olivier à pressão de saber que a sua kind of girlfriend angariou dois latinos para partilhar o mesmo “tecto”?
    Bom, há muitas perguntas no ar, espero ansioso pelos próximos episódios…
    Grande abraço!

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  8. Espera espera que o próximo texto terá por base certamente um dos alertas que os meus tios me fizeram no nosso último encontro.

    ps: suspense é isto... :)

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