A uma dada altura da nossa estadia clandestina começamos a notar algum desconforto no Sérgio e no Damian. O Rodrigo e o William tinham o seu quarto imaculado e estavam em paz com a nossa presença. Já o Sérgio, depois de assimilar que não ia viver connosco, tinha decidido alugar a sala onde nós dormíamos, ou seja, enquanto nós não abandonássemos aquela alcatifa tenebrosa ele não tinha outra hipótese que não fosse a de arroxar no chão do quarto do Damian que depois de uma semana e tal, não achava muita piada à situação. Decidimos procurar novamente uma casa os três, tinha mesmo de ser. Para juntar à confusão tinha chegado mais uma pessoa à casa: A Elena, uma okupa espanhola de 30 e tal anos amiga de uma amiga do Rodrigo. Mais uma a dormir naquela alcatifa demoníaca. Recomeçámos a procura e vimos uma casinha perfeita. Dois quartos e uma sala com um jardim interno mágico, 200 pounds a cada um, numa zona pintada pela natureza. Era perfeito. Quase demasiado. O Miguel e o Rui foram ver, os senhorios gostaram deles, e decidimos mudar para lá o mais rápido possível. Uns dias depois fomos ter novamente com os donos do flat, agora eu e o Miguel, e revelámos que seríamos três a viver lá. Escândalo. Não podia ser, diziam eles. Só podem viver duas pessoas no flat e se as autoridades descobrem que estão três cai uma multa de 5000pounds. Fiz o meu teatro e disse que tinha muita pena mas que me arranjava noutro sítio. Claro que continuava a pensar ficar lá na mesma, nem sequer imaginei outra hipótese. Quem é que iria descobrir? E se descobrissem como iriam provar que eu lá estava a viver e não era apenas um amigo a dormir no sofá depois de uma noitada? Isto era o meu discurso interior. O Miguel tinha outro, naturalmente. Era o drama, absolutamente trágico, “eles” podiam aparecer às cinco da manhã e colocar-nos a todos em tribunal e não sei quê. Depois de tentar racionalizar e de obter sempre o mesmo discurso negativo e conspirativo, decidi deixar a ideia a pairar. Ele triturava-se em preocupações e eu esperava por decisões. Não podia ser eu sozinho a decidir, ele é que ia ter o nome no contrato pois era o único que iria permanecer mais de 6 meses. O Rui estava alinhado comigo e, tal como eu, deixou-o pensar.
No dia seguinte, em conversa aberta, coisa rara durante essas três semanas, apercebemo-nos que este possível Não podia ser uma oportunidade. Será que queríamos mesmo viver com o Miguel? Não iríamos ficar presos a ele e ele a nós? Nós queremos liberdade absoluta, poder sair do país quando bem nos apetecer, enquanto que ele vai cá ficar no mínimo até Setembro e precisa acima de tudo de estabilidade e segurança. Para além disto, havia ainda o efeito que este trio tinha em nós. Toda aquela depressão e negatividade constante acabava por se transmitir, pesava-me a mim e mais ainda ao Rui, ocupava tanto espaço que não sobrava nenhum para nós, e nós não viemos por aí para nos anular-mos. Conversámos sobre a hipótese de irmos os dois, de alugarmos apenas um doubleroom numa casa partilhada onde pagaríamos menos e estaríamos mais soltos. Só de falar nisto já respirávamos de alívio e sonhávamos com o momento, uma corrente de energia louca explodia nos nossos corpos só de imaginar a possibilidade. Este Não é a vida a dizer-nos alguma coisa, desabafava o Rui. Há que confiar na vida, respondia eu. Depois de muitas voltas regressávamos então ao mesmo: estávamos bem os dois sozinhos. Foi aí que vimos que, depois de três semanas a dormir ombro com ombro no mesmo colchão insuflável manhoso, depois de 3 semanas no mesmo sítio, só agora estávamos realmente juntos. Todo aquele pessoal, todo o peso do Miguel e toda a missão de procurar trabalho e resolver questões burocráticas tinha-nos afastado completamente. Não havia espaço para estarmos. Fechámos então a questão: se esta casa não desse seguiríamos os dois para outra, livres. No dia seguinte falámos com o Miguel, que tinha colocado o outro flat de parte e já pressentia a nossa inclinação nas suas teorias da conspiração, desta vez com fundamento. Compreendeu a cena, achou até que seria melhor para ele e recomeçámos a procura, desta vez separados em dois. As camadas em excesso iam caindo e a nossa leveza ia aumentando. Ao longo deste filme os nossos dois flatmates descontentes iam contando os dias que nós iríamos demorar a sair da casa, não porque não gostassem da nossa companhia mas porque gostavam bastante mais de ter o seu espaço íntimo. Compreensível, mas desagradável. Durante todo este processo, que agora descrevo com demasiada minúcia, até que andava tranquilo. Tinha vindo preparado para um começo de guerreiro e todo o amor que trouxe comigo dava-me auto estima de sobra para passar ao lado de todo o stress alheio. Acabava por seguir o meu caminho sozinho mas sentia-me bem com isso. Contudo agora já não me sentia invencível, tinha passado para o outro lado. Temos que sair Rui, não podemos perder mais tempo. É já caralho, esta merda já me está a atrofiar. O Rui agora trocava de lugar comigo nesta atabalhoada dança e dizia-me que não havia razões para ficar nervoso. Vamos lá procurar o nosso lugar.
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