domingo, 6 de fevereiro de 2011
Um mês II
Saímos fortalecidos. Contra as agoirentas previsões de Janeiro, um de nós conseguiu arranjar trabalho em menos de uma semana. Era uma questão de tempo até o outro seguir o mesmo trilho. Passaram-se dias, uma semana e mais uns dias e nada. Fui até a uma entrevista para cleaner a meia hora de distância de autocarro, mas nada feito. Até que recebo finalmente uma resposta a um mail que me deixou confiante. O trabalho também era com flyers mas só para umas festas pontuais para uns Dj's conhecidos aqui da zona. Fui então à minha segunda entrevista e correu bem. Na mesma noite recebo uma mensagem de um deles a dizer que talvez precisasse de mim nessa noite. I'm in moooohooofuckas!!! Não chegaram a chamar-me nessa noite embora me tenham dado a entender que seria o flyer man escolhido. A meio da semana seguinte recebo o mail do meu primeiro trabalho escocês. Quinta-feira à porta da discoteca tal, sexta à porta daquele bar, sábado à entrada de tal concerto e domingo à saída da outra discoteca. 10 pounds à hora. Fabuloso. Teria que lá estar a entregar flyers durante uma hora. Vejo o horário: 2.15 às 3.15 da manhã. Cum caralhote. Nós andávamo-nos todos a deitar à meia noite, vencidos pela procura diária de work, e eu agora ia sair de casa sóbrio às duas da manhã, com o apartamento inteiro a dormir há mais de duas horas, para entregar flyers a bifes que caiam de bêbados discoteca fora antes de rastejarem para casa. Adorei. Era mesmo esta merda que eu queria, algo fora, violento e desafiante. Tinha pena de serem tão poucas horas, mas juntando a isto o tempo de ir buscar os flyers e o caminho de ida e volta, ainda dava um bom dinheiro. Pelas minhas contas fiz 80 pounds nessas 4 noites. É um começo, pensei. Com o meu mp3 no bolso, sempre com música fabulosamente aleatória a servir-me de banda sonora, lá fiz o trabalho sujo dessas quatro madrugadas. Eu no meu ritmo, eles noutro. O que mais me impressionou foi a decadência que vi. Estes gajos estão noutro nível. Um nível bem baixinho. Seja qual for a idade, o sexo ou a profissão, estes escoceses matam-se com álcool. Não são bebedeiras gigantes como as nossas, são suicídios não consumados. Enquanto que nós numa noite mais agressiva podemos cambalear (só falo por mim claro..), eles chocam contra paredes e caiem para a frente, para os lados e para trás, não se aguentam em pé. Parecem zombies, olhos vazios e lábio descaído, completamente acabados como seres humanos, dezenas a esfarraparem-se pelo asfalto. Mulheres de 55, putos de 18, homens de 40 ou pessoal da minha idade, vi de tudo. O que me vale é que tenho sempre a minha musiquinha a dar alguma harmonia a esta dança deprimente. Confesso que a melhor parte do trabalho, para além do dinheiro, é o momento anterior à saída, duas horas sozinho em casa com tudo a dormir e eu a escrever, e o caminho de ida e volta, quando me deixo levar pelos acordes e batidas das minhas bandas mais marcadas enquanto canto e vagueio pela ruelas secundarias da cidade.
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