domingo, 6 de fevereiro de 2011
Um mês I
Dentro de poucos dias faz um mês desde o dia em que aterrámos em terras de William Wallace. Sempre com a liberdade em mente começámos a sangrenta batalha para arranjar trabalho, a batalha pela nossa independência. Sabíamos que seria a parte mais dura da viagem mas estávamos preparados, foram 3 anos e meio de espera, estávamos fortíssimos. Antes da partida havia algumas possibilidades para este começo, já pensadas como certezas, mas penso que nenhuma se cumpriu. Nos últimos dias em Portugal estudámos através de vários telefonemas com o Miguel a hipótese de vivermos os dois com ele e mais um amigo, o Sérgio, um músico português que por cá vive há mais de três anos e que também prometia ajudar neste início escocês. Seria mais fácil para nós e a verdade é que no avião ainda não sabíamos se já haveria uma casa pronta para nos receber ou se iríamos ficar uns dias em casa de uns amigos deles até nos mudarmos os quatro. A primeira opção fazia-nos sonhar com uma aterragem segura. Sonho não cumprido. Fomos para casa de desconhecidos, onde os nossos companheiros tugas também dormiam por favor. Resumindo, entrávamos numa casa com três quartos ocupados onde dormiriam agora mais quatro tugas em modo tetris no chão de uma sala poeirenta com quilos de cotão e pêlos púbicos agarrados à alcatifa. Nada que nos atemorizasse, mas a batalha mal tinha começado. Passados apenas dois dias concluímos que o Sérgio até era um gajo porreiro mas nunca seria alguém com quem partilhássemos uma casa. Fala-barato, surdo, pintarolas e superficial não eram adjectivos com que quiséssemos conviver durante mais do que uma hora por semana. Ajudou-nos muito, e continua a ajudar, mas nada tem a ver connosco. Para além das primeiras missões de arranjar número de segurança social e abrir uma conta no banco, juntava-se agora a de fazer perceber ao nosso anfitrião que preferíamos viver só os três, um grupo mais fechado e mais confortável. Foi ele que nos arranjou este poiso temporário, foi ele que nos iniciou na batalha burocrática e laboral, contudo, por mais desagradável que fosse, não seria por isso que iríamos abdicar da nossa maior preciosidade, o grande motor da nossa viagem - a nossa liberdade. Se nem em Portugal o deixaríamos, quanto mais aqui. Iríamos então viver os três. O Rui, um yoggie dedicado. O Miguel, um pessimista federado. E eu.
Enquanto cumpríamos estas missões, e depois de andarmos à procura de uns quantos flats com dois quartos e uma sala, fomo-nos apercebendo que seria um completo suicídio investir numa casa sem trabalho assegurado, seria meter a corda ao pescoço. Desde a chegada que só gastávamos o mínimo para sobreviver, dois pounds no máximo e só para alimentação a comer uns ovinhos de manhã e a dividir uma refeição de 1 por 2 ao jantar de final de tarde, e mesmo com estes gastos ridículos sentíamos uma pequena tensão ao ver o dinheiro em contagem decrescente sem entrar nenhum. Em cima disto ainda havia outra coisa com que não contávamos quando partimos. Tinham-nos dito que arranjar trabalho em Edimburgo era básico e que havia mesmo uns part-times a distribuir jornais que era só ir lá e começar a trabalhar. Quando chegámos disseram-nos que Janeiro era o pior mês para arranjar trabalho, Fevereiro era pouco melhor, e jornais só mesmo nos quiosques e custavam mais do que o nosso almoço. É a batalha inicial dizia eu. É normal, ninguém disse que seria fácil. Ou será que disseram? Hum...não interessa. Por mais desconfortáveis e invasores que nos sentíssemos teríamos que nos aguentar naquele flat e poupar na estadia até atingirmos uma posição tranquila. Não digo que não sentia um medo anão mas havia tanto amor em mim, a energia que me trouxe era tão gigante que até tive pena do coitado do anão, levou tanto espancamento. O Rui é que se ressentia um pouco com isto tudo, principalmente porque viveu os últimos meses no conforto do seu espaço sem ter ninguém a quem dar satisfações e agora estava dependente, à procura de trabalho para sobreviver e preso a um apartamento impessoal com sete gajos. Eu, o Miguel, o Sérgio e os donos da casa que nenhum de nós conhecia de lado nenhum: O Rodrigo, um músico espanhol tranquilíssimo; o William, um curioso escocês de Glasgow que parece tirado de um filme indie americano sobre nerds hipsters; e o Damian, um pequeno polaco brutamontes, speedado, peixeiro e narcisista.
Focámos então a nossa atenção em arranjar trabalho o mais rápido possível para podermos sair desta frágil situação. Sentíamos que isto não poderia durar muito portanto atacámos com tudo. Todos os dias a enviar mails e a procurar os tais papelinhos A4 nas portas de pubs e cafés. Candidatei-me a trabalhos de bar, catering, cafés, museus, homem das limpezas, assistente social, e até de porteiro. Entretanto saía daquele apartamento badalhoco sempre que podia para dar um passeio pela cidade. Vi o Museum of Scotland e as National Galleries, candidatei-me aos dois à saída, e deixei-me andar por entre as épicas construções em pedra desta histórica cidade escocesa. Era aí que levitava. Sem ninguém a quem me adaptar, sem ter que ver ou ouvir quem quer que fosse, seguia fluidamente os meus sentidos desbravando perdido pelas ruas do desconhecido. O tempo para estas escapadelas não abundava mas tinha que fugir ao peso daquela casa de quando em quando. O Rui ainda dava o seu passeio ocasional. Já o Miguel, um negativista autodestrutivo, ficava fechado em casa de pijama o dia inteiro a tentar finalizar o currículo e a sua application para a Universidade de Edimburgo, enquanto se martirizava por não conseguir fazer nada. Passámos um bom tempo, principalmente eu que não tinha um passado em comum, a servir de treinadores motivacionais do Miguel.
No final da primeira semana, a primeira grande notícia. O Sérgio tinha falado com uns amigos e conseguido arranjar-nos um part-time a entregar flyers para um restaurante. Eu e o Rui já saltávamos que nem guerreiros, 2 ou 3 segundos em festejos, até que o Sérgio conclui a notícia: só havia uma vaga. Parámos, olhámos um para o outro sem saber o que dizer e eu pensava como é que nunca me passou pela cabeça que esta situação estava condenada a acontecer mais cedo ou mais tarde. Rimo-nos entre dentes e pouco depois a alegria de um de nós já se ter safado veio ao de cima. O Miguel estava fora da corrida, só se interessava por trabalhos de escritório, portanto a vaga teria que cair para um dos dois. Decidimos atirar moeda ao ar. Se havia alguma decisão a tomar que fosse a vida a tomar por nós. Apesar das insistências boçais para o fazermos ali acabámos por adiar o momento para quando nos apetecesse, não queríamos espectadores. Mais tarde, ao voltarmos sozinhos das compras, no meio de uma das ruas principais da cidade, o Rui sugere acabarmos com o assunto. Eu fico com cara, ele coroa. Não há cá melhor de três que isso é uma estupidez competitiva. Senti que ia perder mas estava tranquilo. Atirámos a moeda ao ar pelo nosso primeiro trabalho da viagem, deixámo-la tilintar e dançar à vontade pela calçada, e vimos o resultado. Coroa. O pressentimento estava certo e ambos sentimos que a vida também estava: de nós os dois, o Rui era o que tinha menos dinheiro. Fazia sentido. Abraçámo-nos sem merdas mas com força e seguimos leves até casa.
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