domingo, 30 de janeiro de 2011

O inicio


Apanhámos o comboio às 7 e tal na estação do Oriente. Tínhamos Faro como destino e o Parque das Nações, sítio onde vivi e trabalhei durante estes 3 anos, como ponto de partida.  Saltámos para dentro do comboio, fugimos da confusão e metemo-nos na carruagem mais vazia. Quando o comboio arrancou e vi a paisagem a ficar para trás, aquela cinzenta micro cidade de betão, estranhei e estranhei-me. Seguimos para Sul. A nossa ideia era chegar a Faro e caminhar em direcção ao aeroporto para lá dormirmos e acordarmos para o avião. Durante a viagem eu lia o meu livrinho e o Rui ia ouvindo música. Depois de uma hora e tal sobre carris começo a ouvir uma conversa uns bancos atrás de mim. Era um homem com os seus 30 e tal anos, ar respeitável com a sua camisa e calças de fatinho, a falar com dois putos metaleiros de 18. Mas ele não falava, desabafava. E os putos ouviam. Senti um voz emocionada e um tom semi-profético, fortíssimo, e isso arrancou-me a atenção do livro para a conversa – a intensidade da expiação. Passados uns segundos apercebi-me que falava da sobrinha e de como acabava de regressar do funeral dela, uma miúda de 20 e poucos anos. Surgiu um alerta na minha cabeça, mas precisava de confirmação. Desabafava sobre a vida e a inevitabilidade da morte, a ignorância e o absurdo de tudo, o tempo que gastamos em merda quando devíamos estar a aproveitar em nós, e eu já estava concentradíssimo em cada palavra, ainda de costas para ele. O desabafo continuou até que a certa altura oiço o nome da miúda. O meu alerta estava certo. Virei-me para trás e, fitando os húmidos olhos vermelhos do homem, perguntei-lhe se era tal rapariga. Confirmou-me a suspeita e perguntou-me se a conhecia. Não, não a conhecia, mas sabia a história dela. Dois dias antes, no dia de jantar de despedida dos amigos do trabalho, fui ter com eles ao café do costume e antes de estacionar o carro encontrei o Filipe, um dos meus grandes companheiros da faculdade. Um bom amigo. Vi-o a andar pelo passeio, abri os olhos e o vidro do carro e gritei-lhe para entrar. Ele entrou, cumprimentámo-nos e eu agradeci ao mundo verbalmente pelo encontro. Não tinha tido tempo para combinar um até já com ele  e queria muito fazê-lo. “Temos que beber uma jola Félipz, vou-me embora depois de amanhã!”. Não era o melhor dia, dizia-me ele, estava na merda. Eu respondo-lhe que não podia haver melhor altura do que essa para dois amigos se encontrarem. Aceitou e fomos beber um copo. Disse-me logo de seguida que a ex-namorada tinha morrido. Contou-me toda a história enquanto bebíamos a nossa cerveja, estivemos uma boa meia hora a partilhar-nos, e foi com um bonito até já que nos despedimos. E aqui estava eu, dois dias depois deste choque frontal, no comboio para Faro com o Padrinho dela à minha frente. Fomos praticamente a viagem inteira a falar de tudo e mais alguma coisa, sempre com temas humanos e, honestamente, fiquei deslumbrado com tudo o que me estava a acontecer. Tal como eu, também ele se encontrava num momento de transição gigante. Tinha acabado de se demitir há pouco tempo. Trabalhava como advogado e o que fazia da vida era muito simples: Ganhava um salário brutal a despedir pessoas. Foi isto que fez durante anos a fio e nos últimos tempos começou a ter problemas para adormecer, literalmente. Não aguentava mais, já não conseguia fingir que não se passava nada e que não se deixava afectar pelo desespero que causava todos os dias. Contou-me umas quantas histórias assustadoras e eu ouvia atento. Falava com algum orgulho mas com humildade, terra a terra, e falava bem. Disse que não se tinha ficado só pela demissão. Vendeu toda a merda que comprou para o estatuto como iates e outras paneleirices e mudou-se do caos da cidade para uma quinta no Algarve com a mulher. E isto tudo há umas semanas atrás. Foda-se, ainda bem que encontrei este gajo. Finalmente perguntei-lhe o que fazia agora ou o que tencionava fazer. “Sou advogado de pessoas que não têm meios para pagar a um advogado. E sou bom no que faço”. Ri-me fascinado e disse-lhe que tinha passado de diabo para santo. Sorriu de volta e continuámos a conversar enquanto o Rui fazia a sua viola soar em background, com feeling. Perguntou como tencionávamos ir para o aeroporto desde a estação de comboios. Quando lhe disse que íamos a pé chamou-nos de loucos e informou-me que íamos demorar horas. Pois, não pensámos nisso, partimos do pressuposto que o aeroporto seria perto. “Têm muitos malas? Eu levo-vos lá. Faço um pequeno desvio mas não me custa nada”. Fabuloso! Duas horas depois do inicio da caminhada eis que nos deparávamos com a sedutora e imponente “primeira boleia da viagem”. Agradeci-lhes, a ele e à vida, e prosseguimos. Ainda falei com um dos metaleiros hardcores durante uma boa hora, puto engraçado que me disse que “screamava bué” ( screamar é o acto de berrar visceralmente como um demónio, caso não saibam), e quando chegámos à última estação entrámos no carro da nossa boleia e lá fomos para o aeroporto. Despedimo-nos com um até já e acenámos emocionados quando nos largou no aeroporto fantasma de Faro. Andámos perdidos num filme marado à procura de jantar, comemos mal e porcamente, e quando nos deitámos nos desconfortáveis bancos do aeroporto para dormir ainda a estranheza se fazia sentir. O medo implacável continuava a mostrar um pouco da sua força. O Rui sacou umas malhas novas com a guitarra, eu ouvia-o deliciado, e adormecemos semi-inquietos, agarrados às malas. No dia seguinte acordámos revitalizados. Estávamos no aeroporto de Faro, a partida estava à porta e o medo implacável tinha enfim fugido. Comprei meia dúzia de volumes de lucky strike, enfiei-os na mochila de mão, e entrámos no avião. O descolar foi atribulado, tanto que cheguei a pensar que a morte estava a gozar comigo, mas depois acalmei o medo de morrer na praia e adormeci. Chegados a Glasgow fomos directos à malas e, sem parar de andar, perguntámos onde apanhávamos o comboio para Edimburgo e seguimos a pedir informações até que lá entrámos no comboio com dois tugas que meteram conversa connosco. Não se conheciam mas ambos estudavam em Glasgow e vieram a viagem toda connosco, até uma altura onde eu e o Rui teríamos que mudar de comboio, e falavam das suas experiências escocesas. Quando saímos na estação deles, centro de Glasgow, ofereceram-se para nos levar ao sítio onde  apanhávamos o segundo e último comboio para Edimburgo. Colocámos o pé fora da estação de Glasgow, pé firme em terras escocesas, olhámos para cima e deixámos a doce brancura repousar no nosso rosto. Estava a nevar. Perfeito. Deixámos os nossos amigos pouco depois e entrámos no comboio para o nosso primeiro destino. Chegados a Edimburgo com a adrenalina a caminhar por nós fomos ao encontro do Miguel, amigo do Rui que vai estudar na universidade daqui. Íamos os dois lado a lado, juntos mas separados, ambos excitados e assustados, cheios de sonhos e dúvidas, com um universo para dar e receber, ligados um ao outro. Vimos o Miguel, demos um abraço forte, e começámos a nossa jornada escocesa.e e ﷽﷽﷽﷽﷽﷽em. Disse que tambaenfiei-os na mochila de ma. aro.ora, putos engraçados,ea terra, e falava bem. Disse que tamba

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