quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O até já

O dia da partida foi o mais violento. Diria até que foi o único em que o medo me espancou. Até aí eu vinha flutuando e dançando entre a alegria do orgulho e as picadas da insegurança. Mas foi nesse dia, sexta-feira 8, que o medo bateu forte.
A noite anterior, a última em Lisboa, tinha sido também a noite do último jantar de despedida - o jantar com os meus amigos de sempre. Éramos 9 na voz do operário e a coisa desenrolou-se naturalmente com conversas de viagens, boleias, aventuras e amizades. Tudo normal, mas notava-se a presença de um pequeno frémito de nostalgia a correr sobre os nossos pés. Recebi com surpresa alguns presentes como um papel com os "Dez Mandamentos da Arte de Apanhar Boleia", escrito pelo camarada Tomás Machado, e 2 livros de Jack London e um postal musical do Garcia. Abri o postal e logo surgiu uma voz esganiçada a cantar por entre as paredes de cartão: Virar o mundo/de dentro para fora/para ver se o mundo/assim melhora...E assim continuava a música que se atravessava por doze anos de amizade a pedir uma lágrima ou uma gargalhada. A gargalhada que saiu disfarçou um pouco a lágrima que se escondeu mas, como todos sabemos, quem ri por último ri melhor.
Bebemos os nossos copos, alimentámos-nos, pagámos a conta e saímos do restaurante. O Rodolfo e a Catarina ainda iam beber um copito comigo à bica mas, fora eles, ninguém ia sair à noite. Significava isto que a hora da despedida tinha chegado. Alguém teve a ideia de tirar uma foto para a memória, ainda à porta da voz do operário, e outro alguém, um de nós, de uma forma tão carinhosa como esquiva, começou a trautear uma canção. Estávamos todos abraçados para a foto e ela começou a espalhar-se pelas nossas vozes sem eu sequer pensar na letra, embora a soubesse e a estivesse a cantar, e só passados três segundos é que a reconheci. Re-agarrei os meus Amigos de olhar clareado, uma torrente de amor a percorrer-me o corpo inteiro, e declamei cantando com eles e com todo o meu ser 

Quis saber quem sou. O que faço aqui. Quem me abandonou. De quem me esqueci. 
Perguntei por mim. Quis saber de nós. Mas o mar não me traz tua voz....


Perdemo-nos na letra e trauteámos o resto alternando eloquência com risadas, até que chegámos à parte que todos sabíamos, a parte que todos sabíamos que teria que chegar, e explodimos em coro

E DEPOIS DO AMOR

E DEPOIS DE NÓS
O ADEUS
O FICARMOS SÓÓÓÓS


Salva de palmas, abraços, impropérios e outras caralhadas pelo ar.
Emocionado, ordenei uma despedida rápida e concisa, para se fazer suave, e comecei a abraçar um a um. Abracei o Tomás com um sorriso, o grande Botelho, e quando chego ao Garcia, alinhámos o nosso olhar, reconhecemos-nos como sempre, e num abraço desfiz-me em lágrimas. Elas saiam sem pedir nada em troca, a correr, mas a correr rápido mesmo, e eu mandava os meus amigos para o caralho. Filhos da puta, soltava com a voz embargada, já sabia cabrões de merda, filhos da puta. E ria-me enquanto me encharcava em emoção e ia abraçando o resto do grupo a chorar cada vez mais. Gritei um até já e um "não sejam maricas" e fugi para o carro. Fiz a manobra para voltar para o sentido contrário, em direcção à bica. Ao descer viro a minha atenção para a direita e lá continuavam eles, alinhados à beira do passeio a acenar com um ar pateta, cada um com os seus jeitos e trejeitos tão pessoais, cúmplices orgulhosos num fabuloso quadro pintado a óleo.  Acenei de volta quase sem me mexer, o mundo inteiro a abraçar-me, e desci a estrada.

                                    (má qualidade mas o que conta é o feeling)


No dia seguinte acordei em Lisboa aconchegado por um amor que tão bem conheci nestes últimos meses. Demos um beijo, despedimos-nos sem merdas mas com carinho, e segui para casa. Era agora.
Cheguei a casa, desci para o quarto, meti um som fabuloso e comecei a fazer a mala a cantar e a dançar sem pensar muito mas com um profissionalismo goe. Depois dessa missão fui almoçar com os meus pais enquanto trocava mensagens e combinações com o Rui. Almoçámos onde costumávamos almoçar todos os domingos e lá estivemos à conversa. O ambiente era estranho e eu começava a sentir o chão a fugir. Estávamos juntos, a família, mas sabíamos que dentro de um par de horas não estaríamos e a verdade é que não nos preparámos para isso. Os empregados iam-nos servindo aqui e ali e a certa altura o meu irmão diz-me algo e começamos os dois a soluçar, em pleno restaurante. Quando olho para a frente já a minha irmã se lavava em lágrimas. Foi um almoço diferente daqueles a que me habituei, mas muito engraçado. E o bife estava fabuloso!
Mas a parte do espancamento interno veio depois. A caminho de casa, pressentindo que ia ser difícil, decidi impulsivamente, mas com consciência, que o meu até já à família seria em casa. Só o meu pai me levaria ao comboio. Achei que seria a forma mais tranquila de seguir o meu caminho. A minha mãe não aceitou, e isso perturbou-me. Queria com todas as suas forças vir connosco e despedir-se na estação de Algés onde eu ia apanhar o comboio para me encontrar com o Rui no Cais. Tentei explicar as minhas razões várias vezes mas o síndrome de mãe galinha falava alto. Já me começava a sentir fragilizado pelo medo na altura, depois desta discussão mais ainda. Cheguei a casa em tensão, fumei um cigarro e decidi antecipar a questão para evitar dramatismos. Avisei o meu pai e subi ao andar dos quartos. Abracei o meu irmão, que me deu uma micro t-shirt do Benfica para eu levar bem alto, desci e beijei a minha maninha, e fui-me abraçar à minha mãe. Resolvemos tudo com um abraço e uma frase e saí mais tranquilo de casa, ainda a tremer de melancolia. Pedi ao meu pai para ser eu a conduzir o carro, sabia que ia sentir saudades do volante, e seguimos. Quando cheguei à estação soube que tinha feito a decisão certa. Saí do carro, peguei na mala, dei um beijo ao meu pai, trocámos um aceno e, sem mais demoras, virei-me para a estação. Simples e sem merdas. Eu sabia que ele sabia o que eu precisava.
Comprei o ticket e sentei-me no banquinho à espera do comboio. Já não havia volta a dar. Tinha acabado de largar tudo o que conhecia, tudo o que tinha conquistado. Não fazia ideia do que vinha aí, apesar de não o saber desde que o decidi, e era agora que ele surgia: o medo implacável. Completamente irracional, feroz e opressor. Afastava-o a socos e pontapés mas ele não saia do mesmo sitio. Filho da puta. Entrei no comboio, fiz a viagem a desejar uma contemplação do Rio Tejo, e cheguei ao Cais do Sodré com quase uma hora de avanço em relação ao Rui a pensar que lhe devia ter pedido para vir mais cedo. Foram 50 minutos de sofrimento puro. Não sabia o que havia de fazer. Tinha a minha mala às costas, recusava-me a despi-la por devaneios conspirativos, e ia tentando ler o meu livrinho sentado junto a um caixote do lixo. Não passava do primeiro parágrafo. Completamente dominado pelo inconsciente ia fumando cigarros, assustado como um cão abandonado, à espera do Rui como se fosse o dono que me ia salvar das trevas. Olhava para o relógio de minuto a minuto e quando a dois minutos da hora marcada chega um comboio eu levanto-me e fico à espera. Vejo uma multidão a sair e procuro-o como se fosse vital o meu olhar encontrar o dele o mais rápido possível. Procurei e não o vi. O medo implacável carregou impiedosamente na ferida aberta: E se ele não vier? E se desistiu à última da hora? Fodasse como é que eu posso estar a pensar nesta merda?
Sentei-me outra vez e esperei, indefeso. Passou a hora marcada e eu passava-me no meu banquinho. Queria um abraço. Precisava de alguém que me acompanhasse naquele momento de despojo e tinha de ser já. Mais cinco minutos e chega outro comboio. Levanto-me e caminho em direcção a ele. Vou perscrutando as centenas de pessoas que saem e não o vejo. Vou furando a turbe, a dar chapadas no meu inconsciente, até que por fim, lá bem ao fundo, depois de 90% da carruagem se esvaziar, descortino um gajo com ténis e backpack verde alface. Cabrão do vegetariano. Metade do medo caiu ao chão, desacelerei o passo e finalmente recebi o tal abraço. "Fodasse Rui, ainda bem que estamos juntos."
O esplendor de uma nova vida não dispensa a dor do parto.

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