Depois de entrar na estónia no dia 1 de Junho à boleia pelo volante de um estónio vestido de fato de macaco verde e bigode farfalhudo chamado Luigi, encostei-me duas noites em Tartu (a cidade estudantil), duas noites em Haapsulu (na costa da estónia em regime voluntário para uma associação artistico-cultural) e cheguei finalmente a Tallin onde me esperava o gigante Aivar, director da escola Waldorf desta pequena capital. Durante cerca de uma semana fui dormindo nessa escola, sozinho num edifício gigante, numa espécie de arrecadação para material de jardinagem; e também numa associação aristico-cultural-ocupa-etc (chamada Polymer) com um pessoal muito engraçado que conheci numa viagem de eléctrico. Cheguei mesmo a dormir ao ar livre com um saco-de-cama no terraço dessa antiga fábrica soviética de brinquedos, agora ocupada por jovens artistas que, entre música e pintura, iam colorindo/recriando o edifício com roof gardens. Aqui e ali fui dividindo o meu tempo a ajudá-los a criar os tais roof gardens e a ajudar o meu ausente/ocupado anfitrião Aivar a carregar móveis e outras coisas do género por entre o clássico cheiro a século passado dos corredores de escola. Passados uns dias a viver na escola ele emprestou-me uma bicicleta desdobrável para dar umas voltas. Peguei na bicla e decidi que era tempo de reconquistar a minha independência. Pedalei então até ao centro da cidade e bati à porta de vários hostels à procura de trabalho. Após uma tarde de nãos e talvezes acabei por conseguir um lugar como voluntário num dos hosteis mais bem cotados da cidade. Em troca de dois turnos da noite por semana teria direito a dormida, uma refeição por dia e cerveja barata. Dei o meu até já ao Aivar e segui para o meu novo poiso. A questão é que este era um party hostel. Uma semana excessivamente alcóolica se passou, onde a conversa dos outros membros do staff se resumia a "como foi a noite ontem" e "vais sair hoje", e decidi pedir para me transferirem para um hostel mais calmo. Para além de não me identificar com ninguém, sem contar com alguns hóspedes, não conseguia dizer não à cerveja e estava a destruir-me em demasia. Consegui a tal mudança e uns dias depois entro no hostel onde ficaria durante pouco mais de um mês a "trabalhar" e a viver. Um sítio mais confortável, menos claustrofóbico e acompanhado por pessoal humano com mais conteúdo. Não deixou de ser um mês alcóolico (metade da cerveja era oferecida), mas soube-me bem. Guardo pelo menos 4 pessoas comigo. Durante este mês muita coisa aconteceu, histórias rocambolescas que ficarão eternamente na minha memória e sobre as quais hei-de escrever, épicos turnos da noite que começavam às 8 e acabavam às 8 da manhã e festas temáticas que me obrigavam (era mais eu que me obrigava a mim e a toda a gente) a deixar o bigode por fazer. Pelo meio ainda fui passar duas noites a helsínquia com bilhetes grátis para o ferry oferecidos por umas hóspedes finlandesas.
Dia 25 de Julho foi o meu dia de partida. Um até já emocionado aos meus camaradas do hostel e lá saí eu do conforto novamente para o modo boleia-couchsurfing-boleia-couchsurfing em direcção ao sul. A ideia era encontrar-me algures entre a eslováquia e a hungria com a Sara, uma amiga muito especial que me vinha visitar e juntar-se numa road trip de duas semanas. Ela chegaria no dia 5 de Agosto portanto teria que ser mais rápido do que costume, desta vez tinha uma data de chegada, um compromisso. Entretanto os meus planos iam-se alterando à medida que viajava e o meu percurso acabou por ser completamente diferente do que pensei inicialmente. É o modo viagem. Mas adiante. Segui de Tallin para Riga, Letónia, onde passei duas noites. De Riga para Vilnius, Lituânia, onde passei mais duas noites. De Vilnius para Varsóvia, onde fiquei mais duas noites. Aqui, ainda com a ideia de ir a Lviv (ucrânia) e vendo o tempo a apertar, decidi seguir de autocarro para Lublin, cidade polaca próxima da fronteira com a ucrânia. Quando cheguei percebi em conversa com couchsurfers que ia ser dificil ter tempo de visitar L'viv (horários de autocarros, falcatruas demoníacas na fronteira, etc), adiei a minha visita à ucrânia e aceitei o convite/favor de lá ficar duas noites. A partir daqui eu e a Sara já tínhamos decidido que Budapeste seria o sítio ideal para o nosso encontro e eu, tendo em conta que tinha pouco tempo até essa data, conformei-me em traçar uma rota fácil e rápida até lá chegar. De carro com os meus dois hosts de Lublin, que empolgados com a minha viagem decidiram que me levavam/acompanhavam até ao meu próximo destino, segui tranquilo até Presov, na Eslováquia. Duas noites nesta pequena cidade eslovaca, despedi-me dos meus efémeros companheiros de viagem, e segui novamente sozinho e à boleia até Eger, na Hungria. Depois de um dos dias mais fabulosos da minha vida de hitchhiker, consegui chegar cedo a Eger e ver a cidade com tempo. Era 4 de Agosto e no dia seguinte queria encontrar-me com a Sara em Budapeste. Fiquei então apenas uma noite nesta pequena mas riquíssima cidade húngara, onde irei provavelmente voltar, e prossegui à boleia para Budapeste rumo à minha Sarita. Pela primeira vez consegui ir de um destino a outro numa só boleia. Cheguei a Budapeste por volta do meio dia e encontrei-me com a minha pequenita praticamente sete meses depois de nos separar-mos. Desta vez não ia fazer couchsurf ou andar à boleia. Fomos para um hostel, previamente reservado por ela, e ficámos três noites e três dias deslumbrantes na magnífica capital húngara. Mais um sítio onde devo voltar, três dias não chegam para tanta imponência. Seguimos então para a Sérvia. Pernoitámos em Belgrado, a única vez juntos em modo couchsurfing, num pequeno anexo no terraço de um prédio com uma vista para a cidade a fazer lembrar os filmes hollywoodescos, e no dia seguinte lá nos atirámos para Guca. Guca é uma pequena aldeia a sul de Belgrado, encaixada entre dois verdes vales, que recebe todos os anos o festival balcânico mais clássico da Sérvia. Estive lá em 2008 na minha primeira aventura solitária fora de Portugal, dos dias mais felizes da minha vida, e queria lá voltar este ano, desta vez acompanhado. Chegados lá fomos recebidos no mesmo pequeno acampamento privado de 2008 com alcool, abraços e sorrisos por alguns dos amigos/personagens fabulosos que conheci há três anos atrás. Foram 5 noites de música, festa, bebedeiras diárias, amor e pura loucura. Acampados em terreno rochoso e inclinado mas felizes. Deixámos Guca fisicamente destruídos mas com um sorriso nos lábios e partímos de comboio para Montenegro. Passámos quatro belos dias na verdejante costa montenegrina, acompanhados por um casal francês da nossa idade que conhecemos na viagem, e arrepiámos caminho em direcção a Sofia, Bulgária. Era lá que a Sara iria apanhar o seu avião de regresso a Portugal. Depois de uma viagem nocturna de autocarro de 10 horas chegámos a Nis, Sérvia, descansámos um pouco na casa de um amigo que conhecemos em Guca, e fomos para a estação para apanhar o comboio para Sofia. Na estação apercebo-me que o meu laptop não estava comigo. O primeiro momento de pânico de toda a minha viagem. Depois de virar a mala ao contrário em desespero, ligo ao Milan (o tal amigo de Nis) e peço-lhe para ir à estação de autocarros perguntar se tinham encontrado um portátil. Liga-me meia hora depois a pedir-me para esperar na estação de autocarros de Sofia na madrugada seguinte, o meu portátil seguiria no nocturno e chegaria entre as 7 e as 11.30 da manhã. O abraço que eu dei ao meu mac nessa madrugada é algo demasiado lamechas para poder descrever. Fomos então de comboio para Sofia, ficámos 2 horas parados na fronteira da Sérvia com a Bulgária por causa das velhotas que traficavam cigarros de um país para o outro (uma das histórias que um dia passará para papel), e chegámos a Sofia. Comemos alguma coisa com um gentleman inglês que conhecemos no comboio, e seguimos para o aeroporto onde nos iríamos separar novamente. Dormimos umas três horas no mármore com os nossos sacos de cama a servirem de cama, e beijámo-nos num até já. "Aqui estou eu e o mundo outra vez", senti na altura.
Regressei então ao modo couchsurf e assim passei mais três noites em Sofia, com algumas histórias bizarras a colorir a estadia. Nestes dias tomei uma decisão importante. Já não trabalhava a sério desde a escócia, o meu dinheiro estava a fugir e a época das vindimas na França estava a começar. Pensei em seguir à boleia pela macedonia/bosnia/croácia/italia/etc até chegar à frança mas depois de cogitar a hipótese apercebi-me que iria demorar demasiado tempo e iria acabar por gastar bastante dinheiro em comida no processo. A época da apanha das uvas estava mesmo no início e assim chegaria demasiado tarde. Seguindo a ideia da couhsurfer portuguesa que me hospedou em Sofia, comprei bilhete de avião de Istambul para Munique (das cidades mais próximas das vindimas francesas era a viagem mais barata) escolhendo assim visitar a cidade menos europeia da europa. No comboio até Istambul voltei a encontrar um alemão que conheci na viagem entre Nis e Sofia e decidimos desbravar a cidade juntos. Eu em modo couchsurfer, ele em modo hostel, encontrávamo-nos sempre durante o dia e deambulámos durante 3 dias entre mercados e mesquitas, sem nunca falhar a nossa oração diária a Alá. Na primeira noite dormi no lado asiático e nas outras duas no lado europeu de istambul. Nestes últimos dois dias um interessante couchsurfer austríaco juntou-se a nós na descoberta. Finalizado o meu tempo na fabulosa capital turca, voltei à estrada sozinho.
Apanhei o avião no lado asiático no dia 25 de Agosto, rumo a Munique. Duas noites em munique em casa de um amigo do meu companheiro de viagem de Istambul, a deixar-me levar durante os dias pela mágica corrente dos canais do jardim inglês, e regresso ao mundo das boleias rumo a Estrasburgo, França. Duas noites nesta histórica e elegante cidade franco-alemã (tantas foram as vezes que mudou de dono), e apanho nova boleia para Dijon, cidade onde planeava começar a minha busca por trabalho nas vindimas. Uma manhã incrivelmente favorável levou-me rapidamente para o sul de Dijon. Saio do carro da minha última boleia, sento-me no jardim mais próximo e almoço a tarte que o meu host de Estrasburgo me ofereceu. Volto a colocar o meu polegar no ar e passados 30minutos pára um carro. Um gajo da minha idade abre-me a porta tranquilamente e lá vou eu. Começamos a falar e confesso-lhe que venho a Dijon à procura de trabalho nas vindimas. Que estou um bocado perdido porque não sei nada do assunto, não conheço ninguém, mas espero safar-me. "Vamos lá ver", desabafava eu meio inseguro. "Se quiseres posso-te ajudar a pesquisar na net em minha casa". Apesar de ter uma couchsurfer à espera de me receber em sua casa, digo que sim, claro. Lá fomos. Entrámos no apartamento, espaçoso e salpicado por diversos pormenores criativos, e ele mergulha na net à procura de algo. A meio da procura diz-me que talvez se junte a mim no trabalho. Começa a fazer uns telefonemas e pufff, fez-se chocapic! Não se fez chocapic mas arranjou-se trabalho. É mais ou menos a mesma sensação. Já com uma cumplicidade fora do normal íamos disparatando e planeando as coisas e ele diz-me que se eu quiser, depois de ficar na casa da outra couchsurfer, podia dormir aqui, no apartamento dele, sem problema algum. Os flatmates dele são tranquilos e, tendo em conta que teríamos de ir juntos de carro antes das sete da manhã, era o que fazia mais sentido. Aos pulos por dentro e por fora digo-lhe que a vida é bela, mas por outras palavras. "Ça c'est parfait" e "Du Froooomage!!!!" são algumas das palavras que posso ter grunhido. Dormi então uma noite em casa da couchsurfer, numa casa campestre incrível nos arredores de Dijon, e voltei para o centro da cidade, para casa da minha última boleia, o Pierreloup: o meu novo companheiro de viagem. No dia seguinte atacámos as vindimas pela primeira vez nas nossas vidas.
Duas semanas depois, após um total de 13 dias de trabalho em 3 quintas diferentes, muito suor perdido e 800 euros ganhos, várias garrafas de vinho bebidas e incontáveis escoriações pelo meu corpo inteiro, cá estou eu no mesmo sítio - em casa da minha última boleia. O trabalho na última quinta acabou há uns dias e o plano agora é seguir novamente o meu caminho mas voltando a norte para a alsácia, a região das vindimas tardias. Três franceses com quem convivi e trabalhei aqui na borgonha convidaram-me a juntar-me a eles. Além de terem o mesmo objectivo de ganhar dinheiro a apanhar fruta nos próximos meses, já conhecem as manhas todas. Confessavam-me até que em Outubro iríamos para a Córsega, que segundo eles é uma linda e fértil em oportunidades de trabalho. Digo-lhes que sim mas que tenho que partir uns dias mais tarde porque estava à espera do pagamento da última quinta. Eles entretanto seguiram, eu recebi o pagamento, e faço planos de seguir depois de amanhã (terça-feira 20 de Setembro) à boleia para a Alsácia a fim de os encontrar. A questão é que eles não me têm respondido ultimamente. Há fortes possibilidades de ter que partir à procura de uvas no escuro, novamente sozinho. Mas, no meio de tudo isto, o Rui, o Ruijito, meu irmão de viagem que não vejo desde o início de Maio, decidiu que precisa outra vez de dinheiro e que talvez venha ter comigo a França para a apanha da fruta. Digo-lhe que venha quando quiser que estou à espera e que a vida fará por nos encontrar algo. Digo-lhe também em primeira mão que acabo de comprar o bilhete para o Rio de Janeiro com partida no dia nove de Janeiro de Lisboa. A minha aventura nas américas já é tangível. Soltamos uns "CARACAAAAAAAAA MANÉÉÉ!!" no chat e no dia seguinte escreve-me que comprou bilhete de avião para Friburgo, perto da alsácia, e que chega na mesma terça-feira em que eu subo. E é aqui que me encontro neste momento. Sem nada definido, apenas com a certeza do reencontro com o meu Ruijito e, apesar de um natural receio, prossigo com a confiança de sempre na vida.
Ps: Não ando com vontade de escrever, ando mais inclinado para viver. Parar para meter as coisas no papel tem-me parecido sempre contra natura, daí a inactividade do blog. Mas...o que é que isso interessa? Nadaaaaa. Entretanto era para escrever neste post apenas os destinos por onde andei, numa estrutura básica de tópicos. A verdade é que acabei por escrever espontâneamente um bom bocado mais do que planeava. O que não quer dizer que passarei a escrever mais nos próximos tempos :)
Para quem não sabe (para quem não tem facebook), sigo à boleia para Portugal a meio de Dezembro. Conto passar a fronteira no dia 19 e saborear 3 semanas com amigos e família antes de apanhar o avião (só de ida) para o Rio de Janeiro no dia 9. Portanto, até jáááá´!
Virar O Mundo
Ao contrário. Ver as entranhas da Terra.
domingo, 18 de setembro de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Era uma vez o início de uma viagem a solo
Depois de uns meses em terras escocesas
os meninos Arnaldinho
e Ruijito iriam enfim deixar a Escócia e seguir cada um pela sua estrada
pois apesar de serem muito amiguinhos
são também um pouco diferentes
Ruijito foi o primeiro a partir, num bonito mas melancólico até já
Logo a seguir foi a vez de Arnaldinho, numa despedida com emoção..
...e algum medinho
e seguiu entao de comboio para Londres onde encontrou uma grande amiguita apaixonada por um bife
Depois de dar umas quantas voltas por Londres
e de conhecer uns quantos messias
agradeceu a estadia, despediu-se da amiga Elvita
foi passar uns dias com o amiguinho Moura aos subúrbios londrinos
largou alguma bagagem e seguiu entao mais leve para Bristol
Mas Oh! Qual é seu espanto quando parece que regressa à Escócia
não pode...India!?
Após recuperar os sentidos o menino Arnaldinho foi convidado por um simpático e barbudo senhor indiano a juntar-se à celebração dos Sikh.
Aceitou feliz e quando dá por ele está à espera do seu almoço grátis
numa fila verdadeiramente indiana.
numa fila verdadeiramente indiana.
juntou-se à festa maravilhado, cantou e comeu com eles,
e no dia seguinte apanhou o avião para Kaunas, Lituânia.
E foi assim o ínicio da pequena grande aventura de Arnaldinho, sozinho com o mundo.
domingo, 29 de maio de 2011
Entretanto, actualizacao das ultimas semanas.
Dia 9 de Maio aterrei em Kaunas. Tres noites num hostel, tres dias a passear pela cidade.
Apanhei boleia sozinho na autoestrada de kaunas para klaipeda e la fiquei mais tres noites noutro hostel.
De comboio fui ate rokiskis para trabalhar durante tres dias numa quinta em modo wwoof (voluntario numa quinta organica em troca de comida e dormida e, principalmente, em troca de uma experiencia fabulosa).
La conheci a minha companheira de viagem para os seguintes dias, uma miuda suica muito engracada de quem fiquei amigo.Ela estava a fazer mais ou menos o mesmo trajecto que eu portanto decidimos seguir juntos.Revelou-se uma companheira de viagem magica para mim.
Depois dos tres dias nesta primeira quinta fomos juntos, de boleia em boleia, ate ukmerge para outra quinta wwoof onde ficamos 4 dias a trabalhar, comer Vegan, e a conhecer um casal que construiu a sua propria casa (uma strawbale house, go google go) sem qualquer tipo de experiencia previa em contrucao. Tal como a outra quinta estes tambem pretendem atingir uma total independencia em relacao ao "mundo la fora".
Depois desta semana em quintas wwoof a trabalhar e a nao gastar dinheiro algum, para compensar o que gastei na primeira semana, apanhamos novamente boleia mas agora para o norte da lituania: Siauliai.
Uma noite num hotel manhoso e parti a boleia para riga, ainda com a louise (a minha amiga suica).
Em riga entrei no mundo/modo couchsurfing e fiquei tres noites a dormir no sofa de uma miuda que conheci na autoestrada para riga quando estava a apanhar boleia.
Tres dias depois seguimos a boleia para Cesis onde me despedi da louise. La fiquei duas noites noutro sofa de uma couchsurfer e depois mudei para outro sofa ainda em cesis mas agora com um alemao e a sua namorada leta numa casa nos bosques.
Amanha sigo a boleia sozinho ate gulbene, onde vou novamente utilizar esta cena do couchsurf durante duas noites, e depois devo seguir enfim para a estonia, talvez para Tartu.
Ainda nao sei. Veremos!
ps: Quando chegar a Tallin vou finalmente actualizar o ultimo mes e meio em palavras :)
Ate ja
Apanhei boleia sozinho na autoestrada de kaunas para klaipeda e la fiquei mais tres noites noutro hostel.
De comboio fui ate rokiskis para trabalhar durante tres dias numa quinta em modo wwoof (voluntario numa quinta organica em troca de comida e dormida e, principalmente, em troca de uma experiencia fabulosa).
La conheci a minha companheira de viagem para os seguintes dias, uma miuda suica muito engracada de quem fiquei amigo.Ela estava a fazer mais ou menos o mesmo trajecto que eu portanto decidimos seguir juntos.Revelou-se uma companheira de viagem magica para mim.
Depois dos tres dias nesta primeira quinta fomos juntos, de boleia em boleia, ate ukmerge para outra quinta wwoof onde ficamos 4 dias a trabalhar, comer Vegan, e a conhecer um casal que construiu a sua propria casa (uma strawbale house, go google go) sem qualquer tipo de experiencia previa em contrucao. Tal como a outra quinta estes tambem pretendem atingir uma total independencia em relacao ao "mundo la fora".
Depois desta semana em quintas wwoof a trabalhar e a nao gastar dinheiro algum, para compensar o que gastei na primeira semana, apanhamos novamente boleia mas agora para o norte da lituania: Siauliai.
Uma noite num hotel manhoso e parti a boleia para riga, ainda com a louise (a minha amiga suica).
Em riga entrei no mundo/modo couchsurfing e fiquei tres noites a dormir no sofa de uma miuda que conheci na autoestrada para riga quando estava a apanhar boleia.
Tres dias depois seguimos a boleia para Cesis onde me despedi da louise. La fiquei duas noites noutro sofa de uma couchsurfer e depois mudei para outro sofa ainda em cesis mas agora com um alemao e a sua namorada leta numa casa nos bosques.
Amanha sigo a boleia sozinho ate gulbene, onde vou novamente utilizar esta cena do couchsurf durante duas noites, e depois devo seguir enfim para a estonia, talvez para Tartu.
Ainda nao sei. Veremos!
ps: Quando chegar a Tallin vou finalmente actualizar o ultimo mes e meio em palavras :)
Ate ja
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Um excerto do agora
Andre Aguas 13/5 às 19:07
How are you?
I am in Klaipeda at the moment. Tomorrow I am going to visit the curonian spit (and nida, of course) and sunday I think I am going to work some time (more than a week for sure) in a wwoof farm (volunteer in exchange of food and bed) near the lithuania/latvia border. After that I am thinking of visiting Riga and then go meet you in Tallin and stay a couple of months.
Don't know if this plan is going to work out this way but that's just what I am thinking right now and I wanted to share it with you :) I will do it until I get there of course.
Warm regards,
André
I am in Klaipeda at the moment. Tomorrow I am going to visit the curonian spit (and nida, of course) and sunday I think I am going to work some time (more than a week for sure) in a wwoof farm (volunteer in exchange of food and bed) near the lithuania/latvia border. After that I am thinking of visiting Riga and then go meet you in Tallin and stay a couple of months.
Don't know if this plan is going to work out this way but that's just what I am thinking right now and I wanted to share it with you :) I will do it until I get there of course.
Warm regards,
André
Hi Andre
We are ready to welcome you even tomorrow! The small room in school house is waiting for you and I am sure we will find some job in house and in garden. And of course some pocket money J
With best regards
Aivar
We are ready to welcome you even tomorrow! The small room in school house is waiting for you and I am sure we will find some job in house and in garden. And of course some pocket money J
With best regards
Aivar
ps: de referir que o Aivar é amigo de uma amiga da irmã da namorada de um amigo meu.
ps2: CARACAAAA MANÉÉÉÉÉ!
terça-feira, 10 de maio de 2011
Entretanto, actualização da última semana e meia
Até Já Edimburgo.
Dia 2 de Maio o Rui seguiu finalmente para Tamera, em Odemira, deixando-me a sós com o mundo.
Dia 4 segui de comboio para Londres e fiquei duas noites em casa da minha amiga Elvita.
Dia 6 segui para os arredores de Londres e dormi duas noites em casa do meu amigo Moura.
Dia 8 apanhei o autocarro até Bristol e fiz o check-in num hostel no centro da cidade.
Dia 9 entrei no avião em Bristol e saí em Kaunas, Lithuania, e fiz o check-in num hostel.
Amanhã, logo se vê.
Dia 2 de Maio o Rui seguiu finalmente para Tamera, em Odemira, deixando-me a sós com o mundo.
Dia 4 segui de comboio para Londres e fiquei duas noites em casa da minha amiga Elvita.
Dia 6 segui para os arredores de Londres e dormi duas noites em casa do meu amigo Moura.
Dia 8 apanhei o autocarro até Bristol e fiz o check-in num hostel no centro da cidade.
Dia 9 entrei no avião em Bristol e saí em Kaunas, Lithuania, e fiz o check-in num hostel.
Amanhã, logo se vê.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Uns videos em Glasgow
Kelvin Grove Museum
Instalação no Museu de Arte contemporânea
Protesto estudantil
O som dos monstrinhos quando saem à rua
Little Neds. 45 minutos entertido a observá-los
Berros, alcool, breakdance, skate, saltos mortais, discussões gritadas, etc.
Cinema ao vivo.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Umas imagens em Glasgow
| Poster na parede do complexo estudantil do Luzio. |
| A caminho de Kelvin Grove, duas miúdas muçulmanas brincam sob o olhar maternal |
| Ondulação suave no museu de Kelvin Grove |
| O verde da escócia |
| Uma estátua no jardim botânico |
| O céu visto de dentro da estufa |
| De dentro da estufa para fora |
| Os monstrinhos todos no jardim botânico |
| Os monstrinhos no Kelvin Grove |
| O miradouro da lighthouse |
| Telhados e silêncio cá em cima, multidões e barulho lá em baixo. |
| Toda a gente deixa a sua mensagem |
| Museu das religiões em Glasgow |
| Crenças e Religiões. |
| O Imortal e os mortais |
| 'Bora beber uma jola ao cemitério?' |
| Os chinocas flatmates do Luzio |
| Estátua que apresenta o museu contemporâneo de Glasgow |
Uns dias em Glasgow
Quando finalmente atingi o break-even decidi abrir um bocado a cabeça, libertar-me um pouco da ditadura do dinheiro. Apenas um pouco. Falei com o Luzio, um dos poucos amigos do meu passado de adolescente futebolista, e perguntei-lhe se o podia visitar em Glasgow nos dias seguintes para conhecer a cidade, estava mesmo a precisar de ver algo fora de Edimburgo. Vivia lá há uns tempos a estudar para o mestrado e já me andava a chamar para uma visita desde a minha chegada à Escócia. Decidi ir de autocarro numa quarta-feira, logo a seguir às minhas últimas duas horas da semana no Scoobie Sandwich, e voltar no domingo ao final da tarde abdicando assim dos trabalhos de flyers para o Andy e para o Po Na Na. Lá ficaria eu então a dormir no chão do quarto dele durante quatro noites e a desbravar uma nova cidade durante os dias. O Rui decidiu ficar e continuar a amealhar. Neste momento a missão da guita está à frente de tudo para ele. Tamera, a tal comunidade sustentável, está à vista e o único objectivo é ganhar e poupar para lá poder ficar o máximo de tempo possível. De um modo geral a rotina dele tem passado por meditar ao acordar, ir para o trabalho, voltar e ficar sozinho no quarto a descansar ou a tocar guitarra, meditar novamente ao final da tarde, jantar e dormir. Introspectivo, fechado em si mesmo, focado no seu próprio crescimento. Eu, por outro lado, estou mais aberto. Lançei-me aos meus passeios, trilhei a cidade de uma ponta à outra, conheci algum pessoal por aí, vivi histórias engraçadas e andei mais curioso pelo mundo lá fora, sem nunca esquecer o mundo cá dentro. Apesar de tudo, apesar de os nossos caminhos estarem em pólos opostos, vamos-nos acompanhando. Umas vezes lado a lado, outras vezes à distância. Quando nos afastamos demasiado acabamos naturalmente por ter um confronto de honestidade onde nos compreendemos e nos voltamos a abraçar. Ultimamente estamos cada vez mais unidos. Não porque algo tenha mudado nas nossas fases. Pouco ou nada mudou. Mas sim por estas sessões de crua honestidade, pela consciência do aproximar da nossa separação e da profunda aventura que partilhámos nestes meses. Diferentes fases, diferentes viagens, o mesmo sonho. Há um sentimento de orgulho mútuo e de pertença que nada pode afectar. Nem mesmo o facto de dormirmos na mesma cama há 100 dias e de ele continuar a fazer questão de ressonar.
Segui então para Glasgow. Baixei um bocado a guarda monetária mas não muito. Gastei o mínimo possível no autocarro, a estadia era oferecida e ia certamente manter o mesmo regime de alimentação em casa. O Luzio recebeu-me como um senhor. Pagou e cozinhou um salmão para nós os dois e deixou-me à vontade para me aventurar pela cidade, pedindo desculpa por não me poder acompanhar por razões estudantis. Abriu a porta da sua república, um apartamento industrial com aspecto soviético, e apresentou-me os seus flatmates: dois chineses badalhocos, um alemão alfa-nerd, um paquistanês extremamente delicado e um indiano americanizado. Pessoal simpático e curioso. Todos eles me perguntavam sobre a minha viagem e me confessavam que o Luzio era muito certinho e que era o melhor estudante do curso. Nada disto me surpreendeu. O Luzio é realmente um gajo focado. Tão focado que só saiu comigo na primeira noite, e via-se que o fazia por simpática hospitalidade. Para além de focado é também extremamente asseado. Ao contrário da aparente desarrumação geral dos outros flatmates, o Luzio limpava as suas coisinhas todas antes e logo depois de as utilizar, comprava água engarrafada para não beber da torneira, e desabafava o seu desespero por causa da javardice dos dois chineses. Javardice essa que eu pude confirmar quando almocei ao lado deles. Que animais.
Para além da primeira ainda saí mais uma noite para um club com o alemão e um amigo dele de Taiwan (taiwanês?!), onde me fartei de beber pints e vodka ao preço especial de um pound e meio, mas o que mais fiz por Glasgow foi mesmo passear. Acordava de manhã, mas não muito cedo, e lá ia eu sozinho com a minha mochila e a minha sandocha vaguear pela cidade. Quando me punha de pé já o Luzio estava na biblioteca a estudar até à hora de jantar. Sempre de pé, andei quilómetros e quilómetros descobrindo os museus e parques e jardins de Glasgow. Os glaswegians a quem perguntava o caminho diziam-me com frequência que tinha que ir de autocarro, que o sítio para onde ia era muito longe. Aprendi a não ligar às suas previsões catastróficas e consegui ver tudo sem apanhar um único autocarro, caminhando sempre com um ouvido entregue à banda sonora do meu ipod e o outro atento a tudo o que me rodeia. Glasgow é uma cidade maior que Edimburgo, não tão bonita, longe disso, mas mais crua e com mais música na rua. É uma cidade mais real que me deu um estranho prazer conhecer. Para além do betão e da música na rua, Glasgow tem Kelvin Grove - um gigantesco parque verdejante com um enorme museu numa ponta e um jardim botânico a 5 minutos de distância. Foi o primeiro sítio que conheci em Glasgow, depois da primeira noite, e foi a altura ideal para ir. Estava um sol escocês raro, tão raro que pela primeira vez desde que cheguei à Grã-Bretanha consegui deitar-me num jardim de barriga para cima, só de t-shirt, olhos fechados, e sentir o calor solar a aquecer-me o corpo e a face. Afinal o sol na Escócia também bronzeia, escrevi ao Rui na altura enquanto confessava o meu espanto pela quantidade de gente que estava na rua. Parecia que todos os monstrinhos tinham saído das trevas para procederem às suas danças e odes ao deus-sol. Na última noite antes de regressar a Edimburgo a Valentina, a italiana amiga da Margarita, convidou-me para ir jantar a casa dela, com ela e com os seus amigos. Tinha-me avisado uns dias antes que não me podia deixar dormir em casa dela porque seria um pouco estranho visto ela agora ter um "kind-of-boyfriend" mas que neste noite podia dormir se quisesse. Disse que não precisava mas que logo se via. Cheguei e estava tudo à luz das velas, era o dia e a hora do Earth hour. Entrei e vi que os amigos dela formavam um grupo de pessoal de diferentes nacionalidades com ar de artistas, intelectuais e naturalistas que me assustou um bocado. O susto passou quando consegui perceber que não havia muita afectação por ali. Tivemos um belo jantar vegetariano, vinho tinto, música, um ágil guitarrista entre eles, e uma pequena conversa sobre a crise portuguesa e a preocupação dos britânicos pelo dinheiro que também não têm para pagar as nossas dívidas. Acabámos por descer para o jardim e ficámos o resto da noite a falar, beber e, principalmente, a tentar acender uma fogueira num bidom à nova iorquino. Uma fumarada gigante, umas belas gargalhadas e palavras cativantes marcaram o tom desta noite de Glasgow. Uma a uma, as pessoas foram-se despedindo e eu e mais uns poucos fomos ficando. A certa altura senti-me cansado, e meio bêbado, e fui-me despedir. Convidaram-me e insistiram para que eu ficasse e eu disse que não, não precisava e ia dormir a casa do meu amigo. Mostraram-me a sala e lá estava ela: uma fabulosa cama de casal improvisada acabada de fazer com lençóis de seda indianos e duas longas almofadas à minha espera. Não consegui recusar. Depois de mais de dois meses a dormir com o Rui aquela imagem era demasiado miraculosa para ser ignorada. Agradeci emocionado e dormi tranquilamente. No dia seguinte despedi-me do pessoal da casa e segui pelas ruas solarengas da cidade para o flat soviético do Luzio, de olhos amolgados pelo tinto da noite anterior mas com a alma aquecida de amor e imagens para guardar. Almocei, acabei de ler o livro de contos do Jack London que o Garcia me deu (A mão de Midas) e fui com o Luzio beber a prometida pint da despedia num pub perto de nós. Ele fez questão de pagar. Não fez questão mas o meu ar de coitadinho a olhar para o preço exorbitante da jola obrigou-o a oferecer-me. Pagas-me na Costa Rica, soltou divertido, depois de confessar que depois desta missão do mestrado vai viajar pelo mundo durante uns mesitos, sempre atrás do Sol. Despedimos-nos ao final da tarde, agradeci-lhe sentido por tudo, prometi que nos encontrávamos por aí neste meu caminho e separámo-nos. De volta a Edimburgo.
Segui então para Glasgow. Baixei um bocado a guarda monetária mas não muito. Gastei o mínimo possível no autocarro, a estadia era oferecida e ia certamente manter o mesmo regime de alimentação em casa. O Luzio recebeu-me como um senhor. Pagou e cozinhou um salmão para nós os dois e deixou-me à vontade para me aventurar pela cidade, pedindo desculpa por não me poder acompanhar por razões estudantis. Abriu a porta da sua república, um apartamento industrial com aspecto soviético, e apresentou-me os seus flatmates: dois chineses badalhocos, um alemão alfa-nerd, um paquistanês extremamente delicado e um indiano americanizado. Pessoal simpático e curioso. Todos eles me perguntavam sobre a minha viagem e me confessavam que o Luzio era muito certinho e que era o melhor estudante do curso. Nada disto me surpreendeu. O Luzio é realmente um gajo focado. Tão focado que só saiu comigo na primeira noite, e via-se que o fazia por simpática hospitalidade. Para além de focado é também extremamente asseado. Ao contrário da aparente desarrumação geral dos outros flatmates, o Luzio limpava as suas coisinhas todas antes e logo depois de as utilizar, comprava água engarrafada para não beber da torneira, e desabafava o seu desespero por causa da javardice dos dois chineses. Javardice essa que eu pude confirmar quando almocei ao lado deles. Que animais.
Para além da primeira ainda saí mais uma noite para um club com o alemão e um amigo dele de Taiwan (taiwanês?!), onde me fartei de beber pints e vodka ao preço especial de um pound e meio, mas o que mais fiz por Glasgow foi mesmo passear. Acordava de manhã, mas não muito cedo, e lá ia eu sozinho com a minha mochila e a minha sandocha vaguear pela cidade. Quando me punha de pé já o Luzio estava na biblioteca a estudar até à hora de jantar. Sempre de pé, andei quilómetros e quilómetros descobrindo os museus e parques e jardins de Glasgow. Os glaswegians a quem perguntava o caminho diziam-me com frequência que tinha que ir de autocarro, que o sítio para onde ia era muito longe. Aprendi a não ligar às suas previsões catastróficas e consegui ver tudo sem apanhar um único autocarro, caminhando sempre com um ouvido entregue à banda sonora do meu ipod e o outro atento a tudo o que me rodeia. Glasgow é uma cidade maior que Edimburgo, não tão bonita, longe disso, mas mais crua e com mais música na rua. É uma cidade mais real que me deu um estranho prazer conhecer. Para além do betão e da música na rua, Glasgow tem Kelvin Grove - um gigantesco parque verdejante com um enorme museu numa ponta e um jardim botânico a 5 minutos de distância. Foi o primeiro sítio que conheci em Glasgow, depois da primeira noite, e foi a altura ideal para ir. Estava um sol escocês raro, tão raro que pela primeira vez desde que cheguei à Grã-Bretanha consegui deitar-me num jardim de barriga para cima, só de t-shirt, olhos fechados, e sentir o calor solar a aquecer-me o corpo e a face. Afinal o sol na Escócia também bronzeia, escrevi ao Rui na altura enquanto confessava o meu espanto pela quantidade de gente que estava na rua. Parecia que todos os monstrinhos tinham saído das trevas para procederem às suas danças e odes ao deus-sol. Na última noite antes de regressar a Edimburgo a Valentina, a italiana amiga da Margarita, convidou-me para ir jantar a casa dela, com ela e com os seus amigos. Tinha-me avisado uns dias antes que não me podia deixar dormir em casa dela porque seria um pouco estranho visto ela agora ter um "kind-of-boyfriend" mas que neste noite podia dormir se quisesse. Disse que não precisava mas que logo se via. Cheguei e estava tudo à luz das velas, era o dia e a hora do Earth hour. Entrei e vi que os amigos dela formavam um grupo de pessoal de diferentes nacionalidades com ar de artistas, intelectuais e naturalistas que me assustou um bocado. O susto passou quando consegui perceber que não havia muita afectação por ali. Tivemos um belo jantar vegetariano, vinho tinto, música, um ágil guitarrista entre eles, e uma pequena conversa sobre a crise portuguesa e a preocupação dos britânicos pelo dinheiro que também não têm para pagar as nossas dívidas. Acabámos por descer para o jardim e ficámos o resto da noite a falar, beber e, principalmente, a tentar acender uma fogueira num bidom à nova iorquino. Uma fumarada gigante, umas belas gargalhadas e palavras cativantes marcaram o tom desta noite de Glasgow. Uma a uma, as pessoas foram-se despedindo e eu e mais uns poucos fomos ficando. A certa altura senti-me cansado, e meio bêbado, e fui-me despedir. Convidaram-me e insistiram para que eu ficasse e eu disse que não, não precisava e ia dormir a casa do meu amigo. Mostraram-me a sala e lá estava ela: uma fabulosa cama de casal improvisada acabada de fazer com lençóis de seda indianos e duas longas almofadas à minha espera. Não consegui recusar. Depois de mais de dois meses a dormir com o Rui aquela imagem era demasiado miraculosa para ser ignorada. Agradeci emocionado e dormi tranquilamente. No dia seguinte despedi-me do pessoal da casa e segui pelas ruas solarengas da cidade para o flat soviético do Luzio, de olhos amolgados pelo tinto da noite anterior mas com a alma aquecida de amor e imagens para guardar. Almocei, acabei de ler o livro de contos do Jack London que o Garcia me deu (A mão de Midas) e fui com o Luzio beber a prometida pint da despedia num pub perto de nós. Ele fez questão de pagar. Não fez questão mas o meu ar de coitadinho a olhar para o preço exorbitante da jola obrigou-o a oferecer-me. Pagas-me na Costa Rica, soltou divertido, depois de confessar que depois desta missão do mestrado vai viajar pelo mundo durante uns mesitos, sempre atrás do Sol. Despedimos-nos ao final da tarde, agradeci-lhe sentido por tudo, prometi que nos encontrávamos por aí neste meu caminho e separámo-nos. De volta a Edimburgo.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
Um aparte
para quem me acompanha do Brasil até onde quer que eu seja.
Bartulumius e Chapinha, valeu por você(s) existir.
Bartulumius e Chapinha, valeu por você(s) existir.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
O processo
Seja fechado no flat ou solto em deambulações constantes pela cidade o síndrome da viagem torna os sentidos mais sensíveis e a consciência do viver mais forte, mais presente. Desde que me encostei neste flat, 31 Broughton Street, já tive várias fases e vários estados e senti-os a todos.
Pouco depois de entrar neste apartamento, depois de ter os meus dias no sofá a saborear o descanso de um flat familiar, voltei a sair para o activo. Não sem antes levar com a chapada mais impiedosa desde que aterrei: fiquei a saber que o trabalho dos flyers, o tal das meia-horas das 2.45 às 3.15 da manhã, não me pagava as deslocações. Os dez pounds à hora na realidade representavam 5 pounds à meia hora, às 3 da manhã. Gastava mais tempo a ir e voltar do que propriamente a trabalhar e recebia uns míseros 5 pounds por sair de casa às tantas da manhã para aturar zombies decadentes. Confessei ao Andy, o meu boss, que estava desiludido. Não estava só desiludido, estava triste e fodido. Numa de se desculpar prometeu-me mais horas, mas no mesmo sistema, e acabou também por dar-me um work esporádico a colar posters durante o dia nos cafés e pubs da cidade. Salário mínimo claro. Aceitei resignado. Não tinha mais nenhum income, tinha e tenho que me agarrar a qualquer pound. É esta a minha postura neste início e será assim pelo menos até chegar ao meu próximo destino. Preciso de conforto no bolso no começo de tudo isto. Colar posters é um trabalho curioso. Tanto me sinto um privilegiado por ser pago para andar solto pela cidade ao meu ritmo sem ninguém a chatear-me, como me sinto um escravo por estar a andar quilómetros e quilómetros por 5 pounds à hora. Em resposta, o meu modo de guerreiro sugeriu-me uma ideia. Uma bela ideia. Se é para andar de pub em pub, café em café, porque não enfiar o meu currículo na mochila juntamente com os posters? Assim o fiz. Dois trabalhos ao mesmo tempo. Colar posters para as festas do Andy e distribuir currículos para mim. "Sorry can I put up some posters here? Thanks! By the way, do you need someone to work here?". Assim fiz as minhas rondas por Edimburgo durante uns bons dias. Horas e horas a passear pela cidade, a fumar um cigarro aqui e ali, a ser bem ou mal recebido pelos empregados, e a distribuir posters e currículos. Poucos dias depois tive as primeiras respostas. O Sal, dono do Piccante, um fish/chips/kebab a 15 passos de minha casa, liga-me e diz-me para aparecer para falar com ele. Um turco baixinho com um ar descontraído recebe-me com um sorriso e pede-me para fazer um período de experiência no café. Digo que sim, claro. Olho para a parede e vejo uma moldura com a fotografia dele e uma inscrição a dizer "Guiness World Records. Salim, the fastest chip wrapper of the world". Entretanto enquanto lhe agradeço a oportunidade ele confessa-me que não precisa de ninguém de momento, talvez apenas para alguns fins-de-semana, mas para eu aparecer ao final da tarde e vir sempre que quiser para aprender o ofício até estar preparado para trabalhar. Não me paga nada, diz ele, mas posso vir cá comer o que quiser. Consciente das condições mega precárias agradeço-lhe e oiço uma bonita frase "No worries man. I am also a foreign here, I know what's like. We foreigns, we stick together". Senti-me comovido pela atitude e ao mesmo tempo deliciado pelo tom cinematográfico de toda esta cena. No final de tarde dos quatro dias seguintes lá fui eu, 4 horas por dia, aprender. Com dois turcos e um romeno como tutores, comecei a mexer na caixa, a servir aquelas merdas gordurosas nojentas e a fazer trocos. Vesti aquela camisola roxa cheia de nódoas, um chapéu com uma pala oleosa, e lá estive auxiliado por eles a atender clientes esfomeados por comida assassina. Companheiros porreiros, humildes, com um inglês tão gorduroso como as batatas. Passados quatro dias, quatro dias em que jantei de graça e onde ainda bebi uma jolita, senti-me confortável para ligar o Sal e informa-lo que já me sentia preparado para trabalhar no Piccante, esse importante estabelecimento de fast food. Diz-me que me liga quando precisar. Nunca ligou, mas sempre que lá passo oferecem-me comida. Menos mau. Apesar do Rui me confessar que eu saía de lá envolvido em óleo, pior que uma batata frita, foi uma semana que me marcou. Durante esta semana tive outra oferta de trabalho. No final de um dos dias a colar posters, num dos últimos sítios por onde passei perguntei se precisavam de gente. Era uma sandwich shop que, ao contrário do Piccante, parecia bem cuidada. O dono, um fininho franzino de cabelo grisalho, responde-me que sim. Um dos seus empregados vai sair e precisa de alguém para o substituir mas só 2ª, 3ª e 4ªs das 12:00 às 14:00, hora de almoço. 6 horas por semana. Melhor do que nada, pensei. Mas ainda uma bela merda. Diz-me que paga 7.5pounds à hora, mais um pound e meio que o salário mínimo, e que paga em cash. Ao menos isso. O problema é que isto me impede de ter um part-time a sério ou mesmo um fulltime. Digo-lhe que tenho que pensar no assunto e ele diz-me com um ar mais a sério do que a brincar "Ok, but If you say yes don't Fuck Off after two weeks if you get an offer for a fulltime you hear me?". Olho-o de frente e digo-lhe para estar tranquilo. Se aceitar é para ficar. Menti, obviamente, e acabei por aceitar. Passados mais de dois meses a trabalhar no Scoobie sandwich posso dizer que foi o melhor que fiz. O gajo revelou-se relativamente simpático, as outras duas colegas, a Jen e a Sharon, já fazem parte da minha família escocesa. E ainda ganhei duzentos e cinquenta pounds quando tive que substituir a Sharon em fulltime durante uma semana inteira. O trabalho é simples e dinâmico. Apesar de para mim significar ultrapassar um sem número de bloqueios pessoais que sempre me perseguiram, como a minha ansiedade em fazer tudo demasiado rápido e consequente propensão em ser desastrado. Contudo, excluindo o par de vezes em que me queimei e a vez em que fiz um corte profundo na palma da minha mão e fui enviado para casa, correu tudo orgulhosamente bem. Atender o cliente, fazer-lhe a sandes, servir-lhe uma sopa, uma baked potato ou um wrap, meter tudo no saco, fazer a conta na caixa, receber o dinheiro e dar o troco. Rápido, mas não demasiado rápido, e limpinho. Duas horas sem parar, umas piadinhas sobre a crise em Portugal, umas perguntas e respostas íntimas com a Jen entre servir uma sopa e embrulhar uma sandes, e tá feito. Duas horas depois crio uma sandes para o meu almoço, saco um café, tiro uma coca cola, e lá vou eu. Ou para casa ou para o Meadows Gardens, um jardim gigante perto do trabalho onde fico a saborear o meu almoço gratuito a olhar para os ciclistas e os pássaros que disparam sobre o verde à minha volta. Para além dos flyers, dos posters e do Scoobie Sandwich, inscrevi-me na Blue Arrow. Uma empresa de recrutamento para trabalho temporário em catering. Mal passei nos questionários sobre higiene no trabalho aconselharam-me a aparecer no dia seguinte para o Breakfast club. Tinha que lá estar à 7 da manhã de camisa branca, calças pretas, sapatos pretos e barba feita, e a ideia era ficar sentado numa mesinha durante uma hora à espera que algum empregador precisasse de trabalhadores à última da hora. Pedi roupa emprestada a um amigo tuga que cá vive e no dia seguinte acordei às 6 da manhã e segui para as instalações da blue arrow. Sentei-me na mesinha redonda e comecei a falar com as pessoas à minha volta que, tal como eu, esperavam por uma oportunidade de última hora para receber uns trocos. Um argentino, dois nigerianos, um rapaz do Burkina Faso, uma espanhola, e eu. Senti-me como um peruano nos "Diários de Che Guevara", ali à espera que o patrão surja e decida com o seu indicador quem trabalha e quem vai para casa de mãos a abanar. Depois de uma hora mandaram-nos a todos para casa, não havia nada para ninguém. Quem nos mandou para casa foi um dos managers da Blue Arrow, um robot autêntico. A primeira vez que lá fui para me inscrever, eu e o Rui, disse-nos com uma energia assustadora e um sorriso mecânico para aparecermos no dia seguinte às duas da tarde. Fiquei perturbado com a sua simpatia robótica e com os "That's Great!" que ele nos lançou mas no dia seguinte lá fomos. Chegámos às duas e dois minutos. Entramos na sala e ele estava a comer uma sandes na sua secretária. Ao contrário do dia anterior, não tinha um sorriso plástico a rasgar-lhe as bochechas. Cumprimentei-o e depois de o informar que tínhamos um appointment para nos inscrevermos disse-lhe para almoçar à vontade que nós esperaríamos tranquilamente. Limpou as beiças, levantou-se roboticamente de testa suada e com um olhar de borracha, olhou para o relógio e debitou a seguinte frase num tom monocórdico - Well guys, it's 14:04. I told you to be here at two. See you tomorrow at two o'clock ok? - Eu e o Rui nem queríamos acreditar. Quase que implodi de riso. Ainda ficámos uns segundos à espera que ele se partisse a rir e desmascarasse a brincadeira mas era mesmo verdade. Estávamos perante um mutante criado pela sociedade. Um verdadeiro robotário. Anuímos com um sorriso divertido e seguimos para casa de boca aberta entre gargalhadas e caralhadas. No final valeu a pena termos lá voltado e inscrito naquela empresa de maquinistas. O torneio de Rugby das seis Nações foi nessa altura e toda a gente inscrita conseguiu lá trabalho, inclusive nós os dois. Fui servir jolas nos três jogos da Escócia, no estádio de Murrayfield, e através deste work ainda ganhei uns bons pounds e conheci um pessoal porreiro, principalmente espanhóis. Tanto espanhol em Edimburgo, é inacreditável. Muitos polacos também, mas os espanhóis estão em todo o lado.
Outro dos trabalhos pontuais que fiz, umas quatro ou cinco vezes, foi a sacar emails para a mailing list do Andy à entrada de concertos patrocinados por ele. Sempre ao lado da Elly, uma miúda divertida que faz a caixa dos concertos dele enquanto conversa comigo, meto-me com as pessoas e tento que escrevam os seus emails para serem mensalmente perturbados pelos Trouble Dj's, grupo de Dj e organização de eventos do Andy.
A uma dada altura surgiu-me mais umas oportunidades esporádicas. O S., o tuga que me emprestou a roupa e que nos arranjou espaço na sala daquele flat imundo dos primeiros tempos, pediu-me para o substituir a distribuir flyers para uma discoteca. Funciona à comissão dizia-me ele, o número de pessoas que meteres lá dentro é o que ganhas. Se não conseguires nenhuma, não ganhas nada. Em modo guerreiro, disposto a tudo, e sabendo que ele se safava bem, atirei-me à cena. Em duas noites, 6 horas, fiz 50 pounds. 9 pounds por hora é um luxo. Ultimamente eu e o Rui temo-lo substituído várias vezes, a ele e a outros Pr's, e no último fim de semana estava num estado de magnetismo tal que na sexta feira consegui 75 pessoas e no sábado 60. 135 pounds em seis horas...fabuloso! Claro que aturo bêbados anormais e faço promessas mentirosas de "Yes, I will meet you inside..." a várias bifas, corro ao frio de um lado para o outro durante três horas e solto uns "Cheers" inconscientes quando no fundo devia gritar "Fuck Off", mas quando no final do turno saio de lá com 70 pounds no bolso e sigo aos saltinhos até casa a cantarolar deito-me sempre com um sorriso de orelha a orelha. É o preço deste início que se quer de guerreiro, e tenho-me divertido a sê-lo. Sinto-me vivo, constantemente em vida. Só tenho 6 horas de trabalho certas por semana, os três almoços no scoobie sandwich, e os outros works apesar de alguma regularidade são pontuais. Há bem pouco tempo consegui atingir o break even, recuperar o dinheiro que gastei no início, e agora é só ver quanto ganho até sair daqui para o meu próximo destino. Embora tenha havido alturas em que nem espaço para dormir 5 horas por dia tinha, esta falta de trabalho fixo deixa-me sem fazer nada durante a maior parte da semana. Por isso vou variando entre fases de moleza, em que fico por casa a ver filmes, agarrado à net, a rebolar no sofá e a ver jogos do Benfica sozinho com 12 jolas na mão, a falar com a Margarita sobre a nossa vida e a dela ou a ouvir o Rui dar à luz a novas melodias na guitarra; e fases em que não páro em casa, onde vagueio horas e horas pela cidade sozinho ou bem acompanhado, por jardins, museus, exposições e tudo o que o acaso me coloca pela frente. Continuo no regime de 1.5/2 pounds em alimentação por dia, tranquilo, mas desde que atingi o break even decidi abrir um pouco a guarda. Já dei uma volta sozinho por Glasgow há uns dias, instalei-me no chão do quarto de um velho amigo, e daqui a uma semana e meia vou fazer uma road trip de 4 dias pelas Highlands com uma amiga da Margarita. De uma maneira ou de outra, fechado em casa ou a voar por aí, vivo acordado em emoção. Vivo consciente de que estou vivo.
Pouco depois de entrar neste apartamento, depois de ter os meus dias no sofá a saborear o descanso de um flat familiar, voltei a sair para o activo. Não sem antes levar com a chapada mais impiedosa desde que aterrei: fiquei a saber que o trabalho dos flyers, o tal das meia-horas das 2.45 às 3.15 da manhã, não me pagava as deslocações. Os dez pounds à hora na realidade representavam 5 pounds à meia hora, às 3 da manhã. Gastava mais tempo a ir e voltar do que propriamente a trabalhar e recebia uns míseros 5 pounds por sair de casa às tantas da manhã para aturar zombies decadentes. Confessei ao Andy, o meu boss, que estava desiludido. Não estava só desiludido, estava triste e fodido. Numa de se desculpar prometeu-me mais horas, mas no mesmo sistema, e acabou também por dar-me um work esporádico a colar posters durante o dia nos cafés e pubs da cidade. Salário mínimo claro. Aceitei resignado. Não tinha mais nenhum income, tinha e tenho que me agarrar a qualquer pound. É esta a minha postura neste início e será assim pelo menos até chegar ao meu próximo destino. Preciso de conforto no bolso no começo de tudo isto. Colar posters é um trabalho curioso. Tanto me sinto um privilegiado por ser pago para andar solto pela cidade ao meu ritmo sem ninguém a chatear-me, como me sinto um escravo por estar a andar quilómetros e quilómetros por 5 pounds à hora. Em resposta, o meu modo de guerreiro sugeriu-me uma ideia. Uma bela ideia. Se é para andar de pub em pub, café em café, porque não enfiar o meu currículo na mochila juntamente com os posters? Assim o fiz. Dois trabalhos ao mesmo tempo. Colar posters para as festas do Andy e distribuir currículos para mim. "Sorry can I put up some posters here? Thanks! By the way, do you need someone to work here?". Assim fiz as minhas rondas por Edimburgo durante uns bons dias. Horas e horas a passear pela cidade, a fumar um cigarro aqui e ali, a ser bem ou mal recebido pelos empregados, e a distribuir posters e currículos. Poucos dias depois tive as primeiras respostas. O Sal, dono do Piccante, um fish/chips/kebab a 15 passos de minha casa, liga-me e diz-me para aparecer para falar com ele. Um turco baixinho com um ar descontraído recebe-me com um sorriso e pede-me para fazer um período de experiência no café. Digo que sim, claro. Olho para a parede e vejo uma moldura com a fotografia dele e uma inscrição a dizer "Guiness World Records. Salim, the fastest chip wrapper of the world". Entretanto enquanto lhe agradeço a oportunidade ele confessa-me que não precisa de ninguém de momento, talvez apenas para alguns fins-de-semana, mas para eu aparecer ao final da tarde e vir sempre que quiser para aprender o ofício até estar preparado para trabalhar. Não me paga nada, diz ele, mas posso vir cá comer o que quiser. Consciente das condições mega precárias agradeço-lhe e oiço uma bonita frase "No worries man. I am also a foreign here, I know what's like. We foreigns, we stick together". Senti-me comovido pela atitude e ao mesmo tempo deliciado pelo tom cinematográfico de toda esta cena. No final de tarde dos quatro dias seguintes lá fui eu, 4 horas por dia, aprender. Com dois turcos e um romeno como tutores, comecei a mexer na caixa, a servir aquelas merdas gordurosas nojentas e a fazer trocos. Vesti aquela camisola roxa cheia de nódoas, um chapéu com uma pala oleosa, e lá estive auxiliado por eles a atender clientes esfomeados por comida assassina. Companheiros porreiros, humildes, com um inglês tão gorduroso como as batatas. Passados quatro dias, quatro dias em que jantei de graça e onde ainda bebi uma jolita, senti-me confortável para ligar o Sal e informa-lo que já me sentia preparado para trabalhar no Piccante, esse importante estabelecimento de fast food. Diz-me que me liga quando precisar. Nunca ligou, mas sempre que lá passo oferecem-me comida. Menos mau. Apesar do Rui me confessar que eu saía de lá envolvido em óleo, pior que uma batata frita, foi uma semana que me marcou. Durante esta semana tive outra oferta de trabalho. No final de um dos dias a colar posters, num dos últimos sítios por onde passei perguntei se precisavam de gente. Era uma sandwich shop que, ao contrário do Piccante, parecia bem cuidada. O dono, um fininho franzino de cabelo grisalho, responde-me que sim. Um dos seus empregados vai sair e precisa de alguém para o substituir mas só 2ª, 3ª e 4ªs das 12:00 às 14:00, hora de almoço. 6 horas por semana. Melhor do que nada, pensei. Mas ainda uma bela merda. Diz-me que paga 7.5pounds à hora, mais um pound e meio que o salário mínimo, e que paga em cash. Ao menos isso. O problema é que isto me impede de ter um part-time a sério ou mesmo um fulltime. Digo-lhe que tenho que pensar no assunto e ele diz-me com um ar mais a sério do que a brincar "Ok, but If you say yes don't Fuck Off after two weeks if you get an offer for a fulltime you hear me?". Olho-o de frente e digo-lhe para estar tranquilo. Se aceitar é para ficar. Menti, obviamente, e acabei por aceitar. Passados mais de dois meses a trabalhar no Scoobie sandwich posso dizer que foi o melhor que fiz. O gajo revelou-se relativamente simpático, as outras duas colegas, a Jen e a Sharon, já fazem parte da minha família escocesa. E ainda ganhei duzentos e cinquenta pounds quando tive que substituir a Sharon em fulltime durante uma semana inteira. O trabalho é simples e dinâmico. Apesar de para mim significar ultrapassar um sem número de bloqueios pessoais que sempre me perseguiram, como a minha ansiedade em fazer tudo demasiado rápido e consequente propensão em ser desastrado. Contudo, excluindo o par de vezes em que me queimei e a vez em que fiz um corte profundo na palma da minha mão e fui enviado para casa, correu tudo orgulhosamente bem. Atender o cliente, fazer-lhe a sandes, servir-lhe uma sopa, uma baked potato ou um wrap, meter tudo no saco, fazer a conta na caixa, receber o dinheiro e dar o troco. Rápido, mas não demasiado rápido, e limpinho. Duas horas sem parar, umas piadinhas sobre a crise em Portugal, umas perguntas e respostas íntimas com a Jen entre servir uma sopa e embrulhar uma sandes, e tá feito. Duas horas depois crio uma sandes para o meu almoço, saco um café, tiro uma coca cola, e lá vou eu. Ou para casa ou para o Meadows Gardens, um jardim gigante perto do trabalho onde fico a saborear o meu almoço gratuito a olhar para os ciclistas e os pássaros que disparam sobre o verde à minha volta. Para além dos flyers, dos posters e do Scoobie Sandwich, inscrevi-me na Blue Arrow. Uma empresa de recrutamento para trabalho temporário em catering. Mal passei nos questionários sobre higiene no trabalho aconselharam-me a aparecer no dia seguinte para o Breakfast club. Tinha que lá estar à 7 da manhã de camisa branca, calças pretas, sapatos pretos e barba feita, e a ideia era ficar sentado numa mesinha durante uma hora à espera que algum empregador precisasse de trabalhadores à última da hora. Pedi roupa emprestada a um amigo tuga que cá vive e no dia seguinte acordei às 6 da manhã e segui para as instalações da blue arrow. Sentei-me na mesinha redonda e comecei a falar com as pessoas à minha volta que, tal como eu, esperavam por uma oportunidade de última hora para receber uns trocos. Um argentino, dois nigerianos, um rapaz do Burkina Faso, uma espanhola, e eu. Senti-me como um peruano nos "Diários de Che Guevara", ali à espera que o patrão surja e decida com o seu indicador quem trabalha e quem vai para casa de mãos a abanar. Depois de uma hora mandaram-nos a todos para casa, não havia nada para ninguém. Quem nos mandou para casa foi um dos managers da Blue Arrow, um robot autêntico. A primeira vez que lá fui para me inscrever, eu e o Rui, disse-nos com uma energia assustadora e um sorriso mecânico para aparecermos no dia seguinte às duas da tarde. Fiquei perturbado com a sua simpatia robótica e com os "That's Great!" que ele nos lançou mas no dia seguinte lá fomos. Chegámos às duas e dois minutos. Entramos na sala e ele estava a comer uma sandes na sua secretária. Ao contrário do dia anterior, não tinha um sorriso plástico a rasgar-lhe as bochechas. Cumprimentei-o e depois de o informar que tínhamos um appointment para nos inscrevermos disse-lhe para almoçar à vontade que nós esperaríamos tranquilamente. Limpou as beiças, levantou-se roboticamente de testa suada e com um olhar de borracha, olhou para o relógio e debitou a seguinte frase num tom monocórdico - Well guys, it's 14:04. I told you to be here at two. See you tomorrow at two o'clock ok? - Eu e o Rui nem queríamos acreditar. Quase que implodi de riso. Ainda ficámos uns segundos à espera que ele se partisse a rir e desmascarasse a brincadeira mas era mesmo verdade. Estávamos perante um mutante criado pela sociedade. Um verdadeiro robotário. Anuímos com um sorriso divertido e seguimos para casa de boca aberta entre gargalhadas e caralhadas. No final valeu a pena termos lá voltado e inscrito naquela empresa de maquinistas. O torneio de Rugby das seis Nações foi nessa altura e toda a gente inscrita conseguiu lá trabalho, inclusive nós os dois. Fui servir jolas nos três jogos da Escócia, no estádio de Murrayfield, e através deste work ainda ganhei uns bons pounds e conheci um pessoal porreiro, principalmente espanhóis. Tanto espanhol em Edimburgo, é inacreditável. Muitos polacos também, mas os espanhóis estão em todo o lado.
Outro dos trabalhos pontuais que fiz, umas quatro ou cinco vezes, foi a sacar emails para a mailing list do Andy à entrada de concertos patrocinados por ele. Sempre ao lado da Elly, uma miúda divertida que faz a caixa dos concertos dele enquanto conversa comigo, meto-me com as pessoas e tento que escrevam os seus emails para serem mensalmente perturbados pelos Trouble Dj's, grupo de Dj e organização de eventos do Andy.
A uma dada altura surgiu-me mais umas oportunidades esporádicas. O S., o tuga que me emprestou a roupa e que nos arranjou espaço na sala daquele flat imundo dos primeiros tempos, pediu-me para o substituir a distribuir flyers para uma discoteca. Funciona à comissão dizia-me ele, o número de pessoas que meteres lá dentro é o que ganhas. Se não conseguires nenhuma, não ganhas nada. Em modo guerreiro, disposto a tudo, e sabendo que ele se safava bem, atirei-me à cena. Em duas noites, 6 horas, fiz 50 pounds. 9 pounds por hora é um luxo. Ultimamente eu e o Rui temo-lo substituído várias vezes, a ele e a outros Pr's, e no último fim de semana estava num estado de magnetismo tal que na sexta feira consegui 75 pessoas e no sábado 60. 135 pounds em seis horas...fabuloso! Claro que aturo bêbados anormais e faço promessas mentirosas de "Yes, I will meet you inside..." a várias bifas, corro ao frio de um lado para o outro durante três horas e solto uns "Cheers" inconscientes quando no fundo devia gritar "Fuck Off", mas quando no final do turno saio de lá com 70 pounds no bolso e sigo aos saltinhos até casa a cantarolar deito-me sempre com um sorriso de orelha a orelha. É o preço deste início que se quer de guerreiro, e tenho-me divertido a sê-lo. Sinto-me vivo, constantemente em vida. Só tenho 6 horas de trabalho certas por semana, os três almoços no scoobie sandwich, e os outros works apesar de alguma regularidade são pontuais. Há bem pouco tempo consegui atingir o break even, recuperar o dinheiro que gastei no início, e agora é só ver quanto ganho até sair daqui para o meu próximo destino. Embora tenha havido alturas em que nem espaço para dormir 5 horas por dia tinha, esta falta de trabalho fixo deixa-me sem fazer nada durante a maior parte da semana. Por isso vou variando entre fases de moleza, em que fico por casa a ver filmes, agarrado à net, a rebolar no sofá e a ver jogos do Benfica sozinho com 12 jolas na mão, a falar com a Margarita sobre a nossa vida e a dela ou a ouvir o Rui dar à luz a novas melodias na guitarra; e fases em que não páro em casa, onde vagueio horas e horas pela cidade sozinho ou bem acompanhado, por jardins, museus, exposições e tudo o que o acaso me coloca pela frente. Continuo no regime de 1.5/2 pounds em alimentação por dia, tranquilo, mas desde que atingi o break even decidi abrir um pouco a guarda. Já dei uma volta sozinho por Glasgow há uns dias, instalei-me no chão do quarto de um velho amigo, e daqui a uma semana e meia vou fazer uma road trip de 4 dias pelas Highlands com uma amiga da Margarita. De uma maneira ou de outra, fechado em casa ou a voar por aí, vivo acordado em emoção. Vivo consciente de que estou vivo.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Passos de Edimburgo
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