Quando finalmente atingi o break-even decidi abrir um bocado a cabeça, libertar-me um pouco da ditadura do dinheiro. Apenas um pouco. Falei com o Luzio, um dos poucos amigos do meu passado de adolescente futebolista, e perguntei-lhe se o podia visitar em Glasgow nos dias seguintes para conhecer a cidade, estava mesmo a precisar de ver algo fora de Edimburgo. Vivia lá há uns tempos a estudar para o mestrado e já me andava a chamar para uma visita desde a minha chegada à Escócia. Decidi ir de autocarro numa quarta-feira, logo a seguir às minhas últimas duas horas da semana no Scoobie Sandwich, e voltar no domingo ao final da tarde abdicando assim dos trabalhos de flyers para o Andy e para o Po Na Na. Lá ficaria eu então a dormir no chão do quarto dele durante quatro noites e a desbravar uma nova cidade durante os dias. O Rui decidiu ficar e continuar a amealhar. Neste momento a missão da guita está à frente de tudo para ele. Tamera, a tal comunidade sustentável, está à vista e o único objectivo é ganhar e poupar para lá poder ficar o máximo de tempo possível. De um modo geral a rotina dele tem passado por meditar ao acordar, ir para o trabalho, voltar e ficar sozinho no quarto a descansar ou a tocar guitarra, meditar novamente ao final da tarde, jantar e dormir. Introspectivo, fechado em si mesmo, focado no seu próprio crescimento. Eu, por outro lado, estou mais aberto. Lançei-me aos meus passeios, trilhei a cidade de uma ponta à outra, conheci algum pessoal por aí, vivi histórias engraçadas e andei mais curioso pelo mundo lá fora, sem nunca esquecer o mundo cá dentro. Apesar de tudo, apesar de os nossos caminhos estarem em pólos opostos, vamos-nos acompanhando. Umas vezes lado a lado, outras vezes à distância. Quando nos afastamos demasiado acabamos naturalmente por ter um confronto de honestidade onde nos compreendemos e nos voltamos a abraçar. Ultimamente estamos cada vez mais unidos. Não porque algo tenha mudado nas nossas fases. Pouco ou nada mudou. Mas sim por estas sessões de crua honestidade, pela consciência do aproximar da nossa separação e da profunda aventura que partilhámos nestes meses. Diferentes fases, diferentes viagens, o mesmo sonho. Há um sentimento de orgulho mútuo e de pertença que nada pode afectar. Nem mesmo o facto de dormirmos na mesma cama há 100 dias e de ele continuar a fazer questão de ressonar.
Segui então para Glasgow. Baixei um bocado a guarda monetária mas não muito. Gastei o mínimo possível no autocarro, a estadia era oferecida e ia certamente manter o mesmo regime de alimentação em casa. O Luzio recebeu-me como um senhor. Pagou e cozinhou um salmão para nós os dois e deixou-me à vontade para me aventurar pela cidade, pedindo desculpa por não me poder acompanhar por razões estudantis. Abriu a porta da sua república, um apartamento industrial com aspecto soviético, e apresentou-me os seus flatmates: dois chineses badalhocos, um alemão alfa-nerd, um paquistanês extremamente delicado e um indiano americanizado. Pessoal simpático e curioso. Todos eles me perguntavam sobre a minha viagem e me confessavam que o Luzio era muito certinho e que era o melhor estudante do curso. Nada disto me surpreendeu. O Luzio é realmente um gajo focado. Tão focado que só saiu comigo na primeira noite, e via-se que o fazia por simpática hospitalidade. Para além de focado é também extremamente asseado. Ao contrário da aparente desarrumação geral dos outros flatmates, o Luzio limpava as suas coisinhas todas antes e logo depois de as utilizar, comprava água engarrafada para não beber da torneira, e desabafava o seu desespero por causa da javardice dos dois chineses. Javardice essa que eu pude confirmar quando almocei ao lado deles. Que animais.
Para além da primeira ainda saí mais uma noite para um club com o alemão e um amigo dele de Taiwan (taiwanês?!), onde me fartei de beber pints e vodka ao preço especial de um pound e meio, mas o que mais fiz por Glasgow foi mesmo passear. Acordava de manhã, mas não muito cedo, e lá ia eu sozinho com a minha mochila e a minha sandocha vaguear pela cidade. Quando me punha de pé já o Luzio estava na biblioteca a estudar até à hora de jantar. Sempre de pé, andei quilómetros e quilómetros descobrindo os museus e parques e jardins de Glasgow. Os glaswegians a quem perguntava o caminho diziam-me com frequência que tinha que ir de autocarro, que o sítio para onde ia era muito longe. Aprendi a não ligar às suas previsões catastróficas e consegui ver tudo sem apanhar um único autocarro, caminhando sempre com um ouvido entregue à banda sonora do meu ipod e o outro atento a tudo o que me rodeia. Glasgow é uma cidade maior que Edimburgo, não tão bonita, longe disso, mas mais crua e com mais música na rua. É uma cidade mais real que me deu um estranho prazer conhecer. Para além do betão e da música na rua, Glasgow tem Kelvin Grove - um gigantesco parque verdejante com um enorme museu numa ponta e um jardim botânico a 5 minutos de distância. Foi o primeiro sítio que conheci em Glasgow, depois da primeira noite, e foi a altura ideal para ir. Estava um sol escocês raro, tão raro que pela primeira vez desde que cheguei à Grã-Bretanha consegui deitar-me num jardim de barriga para cima, só de t-shirt, olhos fechados, e sentir o calor solar a aquecer-me o corpo e a face. Afinal o sol na Escócia também bronzeia, escrevi ao Rui na altura enquanto confessava o meu espanto pela quantidade de gente que estava na rua. Parecia que todos os monstrinhos tinham saído das trevas para procederem às suas danças e odes ao deus-sol. Na última noite antes de regressar a Edimburgo a Valentina, a italiana amiga da Margarita, convidou-me para ir jantar a casa dela, com ela e com os seus amigos. Tinha-me avisado uns dias antes que não me podia deixar dormir em casa dela porque seria um pouco estranho visto ela agora ter um "kind-of-boyfriend" mas que neste noite podia dormir se quisesse. Disse que não precisava mas que logo se via. Cheguei e estava tudo à luz das velas, era o dia e a hora do Earth hour. Entrei e vi que os amigos dela formavam um grupo de pessoal de diferentes nacionalidades com ar de artistas, intelectuais e naturalistas que me assustou um bocado. O susto passou quando consegui perceber que não havia muita afectação por ali. Tivemos um belo jantar vegetariano, vinho tinto, música, um ágil guitarrista entre eles, e uma pequena conversa sobre a crise portuguesa e a preocupação dos britânicos pelo dinheiro que também não têm para pagar as nossas dívidas. Acabámos por descer para o jardim e ficámos o resto da noite a falar, beber e, principalmente, a tentar acender uma fogueira num bidom à nova iorquino. Uma fumarada gigante, umas belas gargalhadas e palavras cativantes marcaram o tom desta noite de Glasgow. Uma a uma, as pessoas foram-se despedindo e eu e mais uns poucos fomos ficando. A certa altura senti-me cansado, e meio bêbado, e fui-me despedir. Convidaram-me e insistiram para que eu ficasse e eu disse que não, não precisava e ia dormir a casa do meu amigo. Mostraram-me a sala e lá estava ela: uma fabulosa cama de casal improvisada acabada de fazer com lençóis de seda indianos e duas longas almofadas à minha espera. Não consegui recusar. Depois de mais de dois meses a dormir com o Rui aquela imagem era demasiado miraculosa para ser ignorada. Agradeci emocionado e dormi tranquilamente. No dia seguinte despedi-me do pessoal da casa e segui pelas ruas solarengas da cidade para o flat soviético do Luzio, de olhos amolgados pelo tinto da noite anterior mas com a alma aquecida de amor e imagens para guardar. Almocei, acabei de ler o livro de contos do Jack London que o Garcia me deu (A mão de Midas) e fui com o Luzio beber a prometida pint da despedia num pub perto de nós. Ele fez questão de pagar. Não fez questão mas o meu ar de coitadinho a olhar para o preço exorbitante da jola obrigou-o a oferecer-me. Pagas-me na Costa Rica, soltou divertido, depois de confessar que depois desta missão do mestrado vai viajar pelo mundo durante uns mesitos, sempre atrás do Sol. Despedimos-nos ao final da tarde, agradeci-lhe sentido por tudo, prometi que nos encontrávamos por aí neste meu caminho e separámo-nos. De volta a Edimburgo.
Sem comentários:
Enviar um comentário