Seja fechado no flat ou solto em deambulações constantes pela cidade o síndrome da viagem torna os sentidos mais sensíveis e a consciência do viver mais forte, mais presente. Desde que me encostei neste flat, 31 Broughton Street, já tive várias fases e vários estados e senti-os a todos.
Pouco depois de entrar neste apartamento, depois de ter os meus dias no sofá a saborear o descanso de um flat familiar, voltei a sair para o activo. Não sem antes levar com a chapada mais impiedosa desde que aterrei: fiquei a saber que o trabalho dos flyers, o tal das meia-horas das 2.45 às 3.15 da manhã, não me pagava as deslocações. Os dez pounds à hora na realidade representavam 5 pounds à meia hora, às 3 da manhã. Gastava mais tempo a ir e voltar do que propriamente a trabalhar e recebia uns míseros 5 pounds por sair de casa às tantas da manhã para aturar zombies decadentes. Confessei ao Andy, o meu boss, que estava desiludido. Não estava só desiludido, estava triste e fodido. Numa de se desculpar prometeu-me mais horas, mas no mesmo sistema, e acabou também por dar-me um work esporádico a colar posters durante o dia nos cafés e pubs da cidade. Salário mínimo claro. Aceitei resignado. Não tinha mais nenhum income, tinha e tenho que me agarrar a qualquer pound. É esta a minha postura neste início e será assim pelo menos até chegar ao meu próximo destino. Preciso de conforto no bolso no começo de tudo isto. Colar posters é um trabalho curioso. Tanto me sinto um privilegiado por ser pago para andar solto pela cidade ao meu ritmo sem ninguém a chatear-me, como me sinto um escravo por estar a andar quilómetros e quilómetros por 5 pounds à hora. Em resposta, o meu modo de guerreiro sugeriu-me uma ideia. Uma bela ideia. Se é para andar de pub em pub, café em café, porque não enfiar o meu currículo na mochila juntamente com os posters? Assim o fiz. Dois trabalhos ao mesmo tempo. Colar posters para as festas do Andy e distribuir currículos para mim. "Sorry can I put up some posters here? Thanks! By the way, do you need someone to work here?". Assim fiz as minhas rondas por Edimburgo durante uns bons dias. Horas e horas a passear pela cidade, a fumar um cigarro aqui e ali, a ser bem ou mal recebido pelos empregados, e a distribuir posters e currículos. Poucos dias depois tive as primeiras respostas. O Sal, dono do Piccante, um fish/chips/kebab a 15 passos de minha casa, liga-me e diz-me para aparecer para falar com ele. Um turco baixinho com um ar descontraído recebe-me com um sorriso e pede-me para fazer um período de experiência no café. Digo que sim, claro. Olho para a parede e vejo uma moldura com a fotografia dele e uma inscrição a dizer "Guiness World Records. Salim, the fastest chip wrapper of the world". Entretanto enquanto lhe agradeço a oportunidade ele confessa-me que não precisa de ninguém de momento, talvez apenas para alguns fins-de-semana, mas para eu aparecer ao final da tarde e vir sempre que quiser para aprender o ofício até estar preparado para trabalhar. Não me paga nada, diz ele, mas posso vir cá comer o que quiser. Consciente das condições mega precárias agradeço-lhe e oiço uma bonita frase "No worries man. I am also a foreign here, I know what's like. We foreigns, we stick together". Senti-me comovido pela atitude e ao mesmo tempo deliciado pelo tom cinematográfico de toda esta cena. No final de tarde dos quatro dias seguintes lá fui eu, 4 horas por dia, aprender. Com dois turcos e um romeno como tutores, comecei a mexer na caixa, a servir aquelas merdas gordurosas nojentas e a fazer trocos. Vesti aquela camisola roxa cheia de nódoas, um chapéu com uma pala oleosa, e lá estive auxiliado por eles a atender clientes esfomeados por comida assassina. Companheiros porreiros, humildes, com um inglês tão gorduroso como as batatas. Passados quatro dias, quatro dias em que jantei de graça e onde ainda bebi uma jolita, senti-me confortável para ligar o Sal e informa-lo que já me sentia preparado para trabalhar no Piccante, esse importante estabelecimento de fast food. Diz-me que me liga quando precisar. Nunca ligou, mas sempre que lá passo oferecem-me comida. Menos mau. Apesar do Rui me confessar que eu saía de lá envolvido em óleo, pior que uma batata frita, foi uma semana que me marcou. Durante esta semana tive outra oferta de trabalho. No final de um dos dias a colar posters, num dos últimos sítios por onde passei perguntei se precisavam de gente. Era uma sandwich shop que, ao contrário do Piccante, parecia bem cuidada. O dono, um fininho franzino de cabelo grisalho, responde-me que sim. Um dos seus empregados vai sair e precisa de alguém para o substituir mas só 2ª, 3ª e 4ªs das 12:00 às 14:00, hora de almoço. 6 horas por semana. Melhor do que nada, pensei. Mas ainda uma bela merda. Diz-me que paga 7.5pounds à hora, mais um pound e meio que o salário mínimo, e que paga em cash. Ao menos isso. O problema é que isto me impede de ter um part-time a sério ou mesmo um fulltime. Digo-lhe que tenho que pensar no assunto e ele diz-me com um ar mais a sério do que a brincar "Ok, but If you say yes don't Fuck Off after two weeks if you get an offer for a fulltime you hear me?". Olho-o de frente e digo-lhe para estar tranquilo. Se aceitar é para ficar. Menti, obviamente, e acabei por aceitar. Passados mais de dois meses a trabalhar no Scoobie sandwich posso dizer que foi o melhor que fiz. O gajo revelou-se relativamente simpático, as outras duas colegas, a Jen e a Sharon, já fazem parte da minha família escocesa. E ainda ganhei duzentos e cinquenta pounds quando tive que substituir a Sharon em fulltime durante uma semana inteira. O trabalho é simples e dinâmico. Apesar de para mim significar ultrapassar um sem número de bloqueios pessoais que sempre me perseguiram, como a minha ansiedade em fazer tudo demasiado rápido e consequente propensão em ser desastrado. Contudo, excluindo o par de vezes em que me queimei e a vez em que fiz um corte profundo na palma da minha mão e fui enviado para casa, correu tudo orgulhosamente bem. Atender o cliente, fazer-lhe a sandes, servir-lhe uma sopa, uma baked potato ou um wrap, meter tudo no saco, fazer a conta na caixa, receber o dinheiro e dar o troco. Rápido, mas não demasiado rápido, e limpinho. Duas horas sem parar, umas piadinhas sobre a crise em Portugal, umas perguntas e respostas íntimas com a Jen entre servir uma sopa e embrulhar uma sandes, e tá feito. Duas horas depois crio uma sandes para o meu almoço, saco um café, tiro uma coca cola, e lá vou eu. Ou para casa ou para o Meadows Gardens, um jardim gigante perto do trabalho onde fico a saborear o meu almoço gratuito a olhar para os ciclistas e os pássaros que disparam sobre o verde à minha volta. Para além dos flyers, dos posters e do Scoobie Sandwich, inscrevi-me na Blue Arrow. Uma empresa de recrutamento para trabalho temporário em catering. Mal passei nos questionários sobre higiene no trabalho aconselharam-me a aparecer no dia seguinte para o Breakfast club. Tinha que lá estar à 7 da manhã de camisa branca, calças pretas, sapatos pretos e barba feita, e a ideia era ficar sentado numa mesinha durante uma hora à espera que algum empregador precisasse de trabalhadores à última da hora. Pedi roupa emprestada a um amigo tuga que cá vive e no dia seguinte acordei às 6 da manhã e segui para as instalações da blue arrow. Sentei-me na mesinha redonda e comecei a falar com as pessoas à minha volta que, tal como eu, esperavam por uma oportunidade de última hora para receber uns trocos. Um argentino, dois nigerianos, um rapaz do Burkina Faso, uma espanhola, e eu. Senti-me como um peruano nos "Diários de Che Guevara", ali à espera que o patrão surja e decida com o seu indicador quem trabalha e quem vai para casa de mãos a abanar. Depois de uma hora mandaram-nos a todos para casa, não havia nada para ninguém. Quem nos mandou para casa foi um dos managers da Blue Arrow, um robot autêntico. A primeira vez que lá fui para me inscrever, eu e o Rui, disse-nos com uma energia assustadora e um sorriso mecânico para aparecermos no dia seguinte às duas da tarde. Fiquei perturbado com a sua simpatia robótica e com os "That's Great!" que ele nos lançou mas no dia seguinte lá fomos. Chegámos às duas e dois minutos. Entramos na sala e ele estava a comer uma sandes na sua secretária. Ao contrário do dia anterior, não tinha um sorriso plástico a rasgar-lhe as bochechas. Cumprimentei-o e depois de o informar que tínhamos um appointment para nos inscrevermos disse-lhe para almoçar à vontade que nós esperaríamos tranquilamente. Limpou as beiças, levantou-se roboticamente de testa suada e com um olhar de borracha, olhou para o relógio e debitou a seguinte frase num tom monocórdico - Well guys, it's 14:04. I told you to be here at two. See you tomorrow at two o'clock ok? - Eu e o Rui nem queríamos acreditar. Quase que implodi de riso. Ainda ficámos uns segundos à espera que ele se partisse a rir e desmascarasse a brincadeira mas era mesmo verdade. Estávamos perante um mutante criado pela sociedade. Um verdadeiro robotário. Anuímos com um sorriso divertido e seguimos para casa de boca aberta entre gargalhadas e caralhadas. No final valeu a pena termos lá voltado e inscrito naquela empresa de maquinistas. O torneio de Rugby das seis Nações foi nessa altura e toda a gente inscrita conseguiu lá trabalho, inclusive nós os dois. Fui servir jolas nos três jogos da Escócia, no estádio de Murrayfield, e através deste work ainda ganhei uns bons pounds e conheci um pessoal porreiro, principalmente espanhóis. Tanto espanhol em Edimburgo, é inacreditável. Muitos polacos também, mas os espanhóis estão em todo o lado.
Outro dos trabalhos pontuais que fiz, umas quatro ou cinco vezes, foi a sacar emails para a mailing list do Andy à entrada de concertos patrocinados por ele. Sempre ao lado da Elly, uma miúda divertida que faz a caixa dos concertos dele enquanto conversa comigo, meto-me com as pessoas e tento que escrevam os seus emails para serem mensalmente perturbados pelos Trouble Dj's, grupo de Dj e organização de eventos do Andy.
A uma dada altura surgiu-me mais umas oportunidades esporádicas. O S., o tuga que me emprestou a roupa e que nos arranjou espaço na sala daquele flat imundo dos primeiros tempos, pediu-me para o substituir a distribuir flyers para uma discoteca. Funciona à comissão dizia-me ele, o número de pessoas que meteres lá dentro é o que ganhas. Se não conseguires nenhuma, não ganhas nada. Em modo guerreiro, disposto a tudo, e sabendo que ele se safava bem, atirei-me à cena. Em duas noites, 6 horas, fiz 50 pounds. 9 pounds por hora é um luxo. Ultimamente eu e o Rui temo-lo substituído várias vezes, a ele e a outros Pr's, e no último fim de semana estava num estado de magnetismo tal que na sexta feira consegui 75 pessoas e no sábado 60. 135 pounds em seis horas...fabuloso! Claro que aturo bêbados anormais e faço promessas mentirosas de "Yes, I will meet you inside..." a várias bifas, corro ao frio de um lado para o outro durante três horas e solto uns "Cheers" inconscientes quando no fundo devia gritar "Fuck Off", mas quando no final do turno saio de lá com 70 pounds no bolso e sigo aos saltinhos até casa a cantarolar deito-me sempre com um sorriso de orelha a orelha. É o preço deste início que se quer de guerreiro, e tenho-me divertido a sê-lo. Sinto-me vivo, constantemente em vida. Só tenho 6 horas de trabalho certas por semana, os três almoços no scoobie sandwich, e os outros works apesar de alguma regularidade são pontuais. Há bem pouco tempo consegui atingir o break even, recuperar o dinheiro que gastei no início, e agora é só ver quanto ganho até sair daqui para o meu próximo destino. Embora tenha havido alturas em que nem espaço para dormir 5 horas por dia tinha, esta falta de trabalho fixo deixa-me sem fazer nada durante a maior parte da semana. Por isso vou variando entre fases de moleza, em que fico por casa a ver filmes, agarrado à net, a rebolar no sofá e a ver jogos do Benfica sozinho com 12 jolas na mão, a falar com a Margarita sobre a nossa vida e a dela ou a ouvir o Rui dar à luz a novas melodias na guitarra; e fases em que não páro em casa, onde vagueio horas e horas pela cidade sozinho ou bem acompanhado, por jardins, museus, exposições e tudo o que o acaso me coloca pela frente. Continuo no regime de 1.5/2 pounds em alimentação por dia, tranquilo, mas desde que atingi o break even decidi abrir um pouco a guarda. Já dei uma volta sozinho por Glasgow há uns dias, instalei-me no chão do quarto de um velho amigo, e daqui a uma semana e meia vou fazer uma road trip de 4 dias pelas Highlands com uma amiga da Margarita. De uma maneira ou de outra, fechado em casa ou a voar por aí, vivo acordado em emoção. Vivo consciente de que estou vivo.
Brilhante chaval. Em alguns momentos, senti-me como se estivesse aí. Saudades meu camarada. Aproveita bastante. Chapinha.
ResponderEliminarUma delícia ler-te André. Por osmose, sinto-me viva também e fico a imaginar as personagens que descreves. Beijinhos com todo o meu carinho. São
ResponderEliminarSabe tão bem saber que vos sabe bem.
ResponderEliminarTodos vocês estão comigo. Todos os que sabem deste blog fazem parte de mim de uma maneira ou de outra, e é fabuloso ter-vos a meu lado.
Beijinhos e abraços gigantes para ti São.
Quanto a ti Chapinha, já tens um post aqui em cima para te entreteres :)
E o poeta vira poema.
ResponderEliminar;)
que delicia ler tudo isto.. :)
ResponderEliminar:)
ainda bem que estás bem, e 'vivo' :)
Mesmo bom dédi da minha vida, já tinha saudades de te ler...:) Mas o que tenho mais é mesmo saudades tuas, mtas! love you so much bonixo***
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