Depois de entrar na estónia no dia 1 de Junho à boleia pelo volante de um estónio vestido de fato de macaco verde e bigode farfalhudo chamado Luigi, encostei-me duas noites em Tartu (a cidade estudantil), duas noites em Haapsulu (na costa da estónia em regime voluntário para uma associação artistico-cultural) e cheguei finalmente a Tallin onde me esperava o gigante Aivar, director da escola Waldorf desta pequena capital. Durante cerca de uma semana fui dormindo nessa escola, sozinho num edifício gigante, numa espécie de arrecadação para material de jardinagem; e também numa associação aristico-cultural-ocupa-etc (chamada Polymer) com um pessoal muito engraçado que conheci numa viagem de eléctrico. Cheguei mesmo a dormir ao ar livre com um saco-de-cama no terraço dessa antiga fábrica soviética de brinquedos, agora ocupada por jovens artistas que, entre música e pintura, iam colorindo/recriando o edifício com roof gardens. Aqui e ali fui dividindo o meu tempo a ajudá-los a criar os tais roof gardens e a ajudar o meu ausente/ocupado anfitrião Aivar a carregar móveis e outras coisas do género por entre o clássico cheiro a século passado dos corredores de escola. Passados uns dias a viver na escola ele emprestou-me uma bicicleta desdobrável para dar umas voltas. Peguei na bicla e decidi que era tempo de reconquistar a minha independência. Pedalei então até ao centro da cidade e bati à porta de vários hostels à procura de trabalho. Após uma tarde de nãos e talvezes acabei por conseguir um lugar como voluntário num dos hosteis mais bem cotados da cidade. Em troca de dois turnos da noite por semana teria direito a dormida, uma refeição por dia e cerveja barata. Dei o meu até já ao Aivar e segui para o meu novo poiso. A questão é que este era um party hostel. Uma semana excessivamente alcóolica se passou, onde a conversa dos outros membros do staff se resumia a "como foi a noite ontem" e "vais sair hoje", e decidi pedir para me transferirem para um hostel mais calmo. Para além de não me identificar com ninguém, sem contar com alguns hóspedes, não conseguia dizer não à cerveja e estava a destruir-me em demasia. Consegui a tal mudança e uns dias depois entro no hostel onde ficaria durante pouco mais de um mês a "trabalhar" e a viver. Um sítio mais confortável, menos claustrofóbico e acompanhado por pessoal humano com mais conteúdo. Não deixou de ser um mês alcóolico (metade da cerveja era oferecida), mas soube-me bem. Guardo pelo menos 4 pessoas comigo. Durante este mês muita coisa aconteceu, histórias rocambolescas que ficarão eternamente na minha memória e sobre as quais hei-de escrever, épicos turnos da noite que começavam às 8 e acabavam às 8 da manhã e festas temáticas que me obrigavam (era mais eu que me obrigava a mim e a toda a gente) a deixar o bigode por fazer. Pelo meio ainda fui passar duas noites a helsínquia com bilhetes grátis para o ferry oferecidos por umas hóspedes finlandesas.
Dia 25 de Julho foi o meu dia de partida. Um até já emocionado aos meus camaradas do hostel e lá saí eu do conforto novamente para o modo boleia-couchsurfing-boleia-couchsurfing em direcção ao sul. A ideia era encontrar-me algures entre a eslováquia e a hungria com a Sara, uma amiga muito especial que me vinha visitar e juntar-se numa road trip de duas semanas. Ela chegaria no dia 5 de Agosto portanto teria que ser mais rápido do que costume, desta vez tinha uma data de chegada, um compromisso. Entretanto os meus planos iam-se alterando à medida que viajava e o meu percurso acabou por ser completamente diferente do que pensei inicialmente. É o modo viagem. Mas adiante. Segui de Tallin para Riga, Letónia, onde passei duas noites. De Riga para Vilnius, Lituânia, onde passei mais duas noites. De Vilnius para Varsóvia, onde fiquei mais duas noites. Aqui, ainda com a ideia de ir a Lviv (ucrânia) e vendo o tempo a apertar, decidi seguir de autocarro para Lublin, cidade polaca próxima da fronteira com a ucrânia. Quando cheguei percebi em conversa com couchsurfers que ia ser dificil ter tempo de visitar L'viv (horários de autocarros, falcatruas demoníacas na fronteira, etc), adiei a minha visita à ucrânia e aceitei o convite/favor de lá ficar duas noites. A partir daqui eu e a Sara já tínhamos decidido que Budapeste seria o sítio ideal para o nosso encontro e eu, tendo em conta que tinha pouco tempo até essa data, conformei-me em traçar uma rota fácil e rápida até lá chegar. De carro com os meus dois hosts de Lublin, que empolgados com a minha viagem decidiram que me levavam/acompanhavam até ao meu próximo destino, segui tranquilo até Presov, na Eslováquia. Duas noites nesta pequena cidade eslovaca, despedi-me dos meus efémeros companheiros de viagem, e segui novamente sozinho e à boleia até Eger, na Hungria. Depois de um dos dias mais fabulosos da minha vida de hitchhiker, consegui chegar cedo a Eger e ver a cidade com tempo. Era 4 de Agosto e no dia seguinte queria encontrar-me com a Sara em Budapeste. Fiquei então apenas uma noite nesta pequena mas riquíssima cidade húngara, onde irei provavelmente voltar, e prossegui à boleia para Budapeste rumo à minha Sarita. Pela primeira vez consegui ir de um destino a outro numa só boleia. Cheguei a Budapeste por volta do meio dia e encontrei-me com a minha pequenita praticamente sete meses depois de nos separar-mos. Desta vez não ia fazer couchsurf ou andar à boleia. Fomos para um hostel, previamente reservado por ela, e ficámos três noites e três dias deslumbrantes na magnífica capital húngara. Mais um sítio onde devo voltar, três dias não chegam para tanta imponência. Seguimos então para a Sérvia. Pernoitámos em Belgrado, a única vez juntos em modo couchsurfing, num pequeno anexo no terraço de um prédio com uma vista para a cidade a fazer lembrar os filmes hollywoodescos, e no dia seguinte lá nos atirámos para Guca. Guca é uma pequena aldeia a sul de Belgrado, encaixada entre dois verdes vales, que recebe todos os anos o festival balcânico mais clássico da Sérvia. Estive lá em 2008 na minha primeira aventura solitária fora de Portugal, dos dias mais felizes da minha vida, e queria lá voltar este ano, desta vez acompanhado. Chegados lá fomos recebidos no mesmo pequeno acampamento privado de 2008 com alcool, abraços e sorrisos por alguns dos amigos/personagens fabulosos que conheci há três anos atrás. Foram 5 noites de música, festa, bebedeiras diárias, amor e pura loucura. Acampados em terreno rochoso e inclinado mas felizes. Deixámos Guca fisicamente destruídos mas com um sorriso nos lábios e partímos de comboio para Montenegro. Passámos quatro belos dias na verdejante costa montenegrina, acompanhados por um casal francês da nossa idade que conhecemos na viagem, e arrepiámos caminho em direcção a Sofia, Bulgária. Era lá que a Sara iria apanhar o seu avião de regresso a Portugal. Depois de uma viagem nocturna de autocarro de 10 horas chegámos a Nis, Sérvia, descansámos um pouco na casa de um amigo que conhecemos em Guca, e fomos para a estação para apanhar o comboio para Sofia. Na estação apercebo-me que o meu laptop não estava comigo. O primeiro momento de pânico de toda a minha viagem. Depois de virar a mala ao contrário em desespero, ligo ao Milan (o tal amigo de Nis) e peço-lhe para ir à estação de autocarros perguntar se tinham encontrado um portátil. Liga-me meia hora depois a pedir-me para esperar na estação de autocarros de Sofia na madrugada seguinte, o meu portátil seguiria no nocturno e chegaria entre as 7 e as 11.30 da manhã. O abraço que eu dei ao meu mac nessa madrugada é algo demasiado lamechas para poder descrever. Fomos então de comboio para Sofia, ficámos 2 horas parados na fronteira da Sérvia com a Bulgária por causa das velhotas que traficavam cigarros de um país para o outro (uma das histórias que um dia passará para papel), e chegámos a Sofia. Comemos alguma coisa com um gentleman inglês que conhecemos no comboio, e seguimos para o aeroporto onde nos iríamos separar novamente. Dormimos umas três horas no mármore com os nossos sacos de cama a servirem de cama, e beijámo-nos num até já. "Aqui estou eu e o mundo outra vez", senti na altura.
Regressei então ao modo couchsurf e assim passei mais três noites em Sofia, com algumas histórias bizarras a colorir a estadia. Nestes dias tomei uma decisão importante. Já não trabalhava a sério desde a escócia, o meu dinheiro estava a fugir e a época das vindimas na França estava a começar. Pensei em seguir à boleia pela macedonia/bosnia/croácia/italia/etc até chegar à frança mas depois de cogitar a hipótese apercebi-me que iria demorar demasiado tempo e iria acabar por gastar bastante dinheiro em comida no processo. A época da apanha das uvas estava mesmo no início e assim chegaria demasiado tarde. Seguindo a ideia da couhsurfer portuguesa que me hospedou em Sofia, comprei bilhete de avião de Istambul para Munique (das cidades mais próximas das vindimas francesas era a viagem mais barata) escolhendo assim visitar a cidade menos europeia da europa. No comboio até Istambul voltei a encontrar um alemão que conheci na viagem entre Nis e Sofia e decidimos desbravar a cidade juntos. Eu em modo couchsurfer, ele em modo hostel, encontrávamo-nos sempre durante o dia e deambulámos durante 3 dias entre mercados e mesquitas, sem nunca falhar a nossa oração diária a Alá. Na primeira noite dormi no lado asiático e nas outras duas no lado europeu de istambul. Nestes últimos dois dias um interessante couchsurfer austríaco juntou-se a nós na descoberta. Finalizado o meu tempo na fabulosa capital turca, voltei à estrada sozinho.
Apanhei o avião no lado asiático no dia 25 de Agosto, rumo a Munique. Duas noites em munique em casa de um amigo do meu companheiro de viagem de Istambul, a deixar-me levar durante os dias pela mágica corrente dos canais do jardim inglês, e regresso ao mundo das boleias rumo a Estrasburgo, França. Duas noites nesta histórica e elegante cidade franco-alemã (tantas foram as vezes que mudou de dono), e apanho nova boleia para Dijon, cidade onde planeava começar a minha busca por trabalho nas vindimas. Uma manhã incrivelmente favorável levou-me rapidamente para o sul de Dijon. Saio do carro da minha última boleia, sento-me no jardim mais próximo e almoço a tarte que o meu host de Estrasburgo me ofereceu. Volto a colocar o meu polegar no ar e passados 30minutos pára um carro. Um gajo da minha idade abre-me a porta tranquilamente e lá vou eu. Começamos a falar e confesso-lhe que venho a Dijon à procura de trabalho nas vindimas. Que estou um bocado perdido porque não sei nada do assunto, não conheço ninguém, mas espero safar-me. "Vamos lá ver", desabafava eu meio inseguro. "Se quiseres posso-te ajudar a pesquisar na net em minha casa". Apesar de ter uma couchsurfer à espera de me receber em sua casa, digo que sim, claro. Lá fomos. Entrámos no apartamento, espaçoso e salpicado por diversos pormenores criativos, e ele mergulha na net à procura de algo. A meio da procura diz-me que talvez se junte a mim no trabalho. Começa a fazer uns telefonemas e pufff, fez-se chocapic! Não se fez chocapic mas arranjou-se trabalho. É mais ou menos a mesma sensação. Já com uma cumplicidade fora do normal íamos disparatando e planeando as coisas e ele diz-me que se eu quiser, depois de ficar na casa da outra couchsurfer, podia dormir aqui, no apartamento dele, sem problema algum. Os flatmates dele são tranquilos e, tendo em conta que teríamos de ir juntos de carro antes das sete da manhã, era o que fazia mais sentido. Aos pulos por dentro e por fora digo-lhe que a vida é bela, mas por outras palavras. "Ça c'est parfait" e "Du Froooomage!!!!" são algumas das palavras que posso ter grunhido. Dormi então uma noite em casa da couchsurfer, numa casa campestre incrível nos arredores de Dijon, e voltei para o centro da cidade, para casa da minha última boleia, o Pierreloup: o meu novo companheiro de viagem. No dia seguinte atacámos as vindimas pela primeira vez nas nossas vidas.
Duas semanas depois, após um total de 13 dias de trabalho em 3 quintas diferentes, muito suor perdido e 800 euros ganhos, várias garrafas de vinho bebidas e incontáveis escoriações pelo meu corpo inteiro, cá estou eu no mesmo sítio - em casa da minha última boleia. O trabalho na última quinta acabou há uns dias e o plano agora é seguir novamente o meu caminho mas voltando a norte para a alsácia, a região das vindimas tardias. Três franceses com quem convivi e trabalhei aqui na borgonha convidaram-me a juntar-me a eles. Além de terem o mesmo objectivo de ganhar dinheiro a apanhar fruta nos próximos meses, já conhecem as manhas todas. Confessavam-me até que em Outubro iríamos para a Córsega, que segundo eles é uma linda e fértil em oportunidades de trabalho. Digo-lhes que sim mas que tenho que partir uns dias mais tarde porque estava à espera do pagamento da última quinta. Eles entretanto seguiram, eu recebi o pagamento, e faço planos de seguir depois de amanhã (terça-feira 20 de Setembro) à boleia para a Alsácia a fim de os encontrar. A questão é que eles não me têm respondido ultimamente. Há fortes possibilidades de ter que partir à procura de uvas no escuro, novamente sozinho. Mas, no meio de tudo isto, o Rui, o Ruijito, meu irmão de viagem que não vejo desde o início de Maio, decidiu que precisa outra vez de dinheiro e que talvez venha ter comigo a França para a apanha da fruta. Digo-lhe que venha quando quiser que estou à espera e que a vida fará por nos encontrar algo. Digo-lhe também em primeira mão que acabo de comprar o bilhete para o Rio de Janeiro com partida no dia nove de Janeiro de Lisboa. A minha aventura nas américas já é tangível. Soltamos uns "CARACAAAAAAAAA MANÉÉÉ!!" no chat e no dia seguinte escreve-me que comprou bilhete de avião para Friburgo, perto da alsácia, e que chega na mesma terça-feira em que eu subo. E é aqui que me encontro neste momento. Sem nada definido, apenas com a certeza do reencontro com o meu Ruijito e, apesar de um natural receio, prossigo com a confiança de sempre na vida.
Ps: Não ando com vontade de escrever, ando mais inclinado para viver. Parar para meter as coisas no papel tem-me parecido sempre contra natura, daí a inactividade do blog. Mas...o que é que isso interessa? Nadaaaaa. Entretanto era para escrever neste post apenas os destinos por onde andei, numa estrutura básica de tópicos. A verdade é que acabei por escrever espontâneamente um bom bocado mais do que planeava. O que não quer dizer que passarei a escrever mais nos próximos tempos :)
Para quem não sabe (para quem não tem facebook), sigo à boleia para Portugal a meio de Dezembro. Conto passar a fronteira no dia 19 e saborear 3 semanas com amigos e família antes de apanhar o avião (só de ida) para o Rio de Janeiro no dia 9. Portanto, até jáááá´!
Até já!
ResponderEliminarVais voar para as Américas... Cum caralho!
Voa, voa!
Hoje estava no meu passeio nocturno e sonhei em viagens pelas Américas e tal. Tinha acabado de ler umas cenas sobre a Bolívia e sobre o Che também. Deu-me para me lembrar do índio da tribo Nasa da Colômbia que conheci em Tamera, e que lidera lá um projecto na comunidade dele onde eu adorava trabalhar. Ainda nos cruzamos por lá Águitas ;)
Duas semanas e acabo o manifesto revolucionário!
Já está bela, formosa e até vaidosa, a marota da tese ;)
Até Janeiro André (;
ResponderEliminar*
Tou à espera desse manifesto Garceila!
ResponderEliminar(e isso de nos encontrarmos pelas américas seria...cum caralhote mais velho!)
Em dezembro damos um abraço pedritas.
Joaninha joaninha...até já! :)
eeeepah vou ter de vos estragar os planos, porque..... é possivel que também eu esteja por lá (pelas américas) no proximo ano!!!
ResponderEliminarterei, contudo, muitíssimo gosto (saltos de alegria) em receber-vos (garcia, vai sonhando e acabas lá=D) e abraçar-vos.
Águitas, por aqui o rodolfo está quase de partida (coração apertado mas vontade na alma), e tu continuas a fazer falta.
Veemo-nos por cá, e depois, em principio, do outro lado=)
até já, já!
Até já já já Catarináááá
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