O dia da partida foi o oitavo do primeiro mês de 2011, mas a verdade é que já o tinha sido há muito mais tempo. Se quiser ser preciso digo que o verbalizei e escrevi, por esta ordem, a 25 de Maio de 2007. Se preferir ser ambíguo e a puxar para o existencial digo que foi bem antes disso, antes de sequer pensar em tais aventuras. Escolho, naturalmente, o caminho mais prático.
Foi na varanda da minha antiga casa, numa longa conversa desabafada entre mim e o Rui, que tudo se desenhou à nossa frente sob a escuridão do vazio. O meu curso universitário estava acabado e andava há mais de meio ano a rebolar entre o sofá da minha sala e o computador do escritório do meu pai. Tentei sem sucesso fugir para o Brasil com a desculpa de uma pós-graduação, mas acabei por Lisboa amargurado a fingir que a vida não existia. O Rui ia subindo a pulso, e a custo, pelo curso de Gestão acima e só sonhava em acabar com aquele monstro da forma mais rápida e indolor possível.
Foi então nessa prolongada noite que, entre palavras tremidas e questões flutuantes, nos surgiu um plano traçado. Ou melhor, três planos. O meu, o dele, e o nosso. A ideia que nos encarou era simples: 3 anos em Portugal, cada um ocupado com a sua missão pessoal, e depois a partida conjunta numa viagem pelo globo com uma duração nunca inferior a dois anos. Depois de saltos e gritos guturais a cortar o silêncio da noite concluímos que não queríamos apenas fazer quilómetros. Definimos então 30 dias como tempo mínimo de permanência em cada país. Concluímos também que, quando em viagem, teríamos que arranjar trabalho onde quer que estivéssemos para poder continuar a caminhar. Qualquer tipo de trabalho. Claro que a matemática deste plano hoje já não faz sentido. O que agora faz sentido é não ter qualquer plano definido. Mas na altura deu jeito para tornar a coisa mais tangível. Adiante.
Como missão pessoal o Rui tinha o curso a finalizar. Faltavam-lhe dois anos de luta e depois disso imaginava-se a fazer um estágio para sentir um pouco o que é um ambiente de trabalho. O meu foco estava apenas virado para arranjar trabalho e aprender o meu ofício durante três anos, tempo mais do que suficiente para me sentir confiante e seguro na estrutura. Ou então para me aperceber que tinha errado na escolha. A primeira opção vingou, felizmente.
Três anos e meio depois foi com alguma surpresa que os meus directores criativos receberam a notícia da minha demissão. Não apenas surpresa, mas orgulho. E foi também com um orgulho infantil que vi o trilho que percorri até esse momento. Tudo o que ultrapassei, os que me acompanharam e todos os que fui ganhando ao longo da jornada. Olhei para trás. Olhei à minha volta. E olhei para a frente. Feliz.
Quando lhes comuniquei a decisão já o nosso primeiro destino estava escolhido: Edimburgo, Escócia. Bilhete comprado poucos dias antes, com partida em Faro, só de ida.
Seguiram-se os melhores dois meses da minha vida. Os dias do até já. Tempos intemporais, banhados pelo esplendor da nostalgia. Polvilhados por copos, amor e lágrimas, com alguns nós desatados pelo meio. Semanas em que me descobri a dar a volta ao mundo ininterruptamente, sem sair da mesma cidade. Sim, a viagem aconteceria. Já estava a acontecer.
"O mundo gira, a fila anda.. as coisas mudam!"
ResponderEliminarMuita força meus irmãos!
Muita força, muita coragem, e muito honra por tudo o que vivi convosco!
Nomadas, e viajantes do mundo..
o meu mais sincero, e sentido, até já! ;)
ADORO-VOS, sucesso.. e deixaram-me a pensar..